Mulheres negras pagam juros mais altos ao recorrerem ao crédito no Brasil

Relatório do Banco Central revela desigualdade na taxa de juros para mulheres negras e destaca aumento no uso do crédito rotativo

Mulheres negras pagam juros mais altos ao recorrerem ao crédito no Brasil
Movimento de pessoas em ambiente urbano, representando inclusão financeira. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Relatório do Banco Central indica que mulheres negras recorrem mais ao crédito e enfrentam taxas de juros mais elevadas que outros grupos.

O Relatório de Cidadania Financeira 2025 do Banco Central, divulgado em 13 de fevereiro, revela que mulheres negras pagam juros significativamente mais altos ao recorrerem ao crédito no país. Segundo Luis Mansur, chefe do Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do Banco Central, essa população enfrenta taxas médias que chegam a 140% ao ano, superiores às de mulheres brancas, homens negros e homens brancos.

Desigualdade na composição do crédito entre mulheres negras e outros grupos

O relatório destaca que, apesar da inclusão financeira quase universal na baixa renda (97,8%), mulheres negras concentram suas dívidas em modalidades mais caras, como o crédito rotativo e o parcelamento do cartão, que representam cerca de 23% da carteira de crédito do grupo. Em contraste, o microcrédito produtivo, que é uma linha mais barata e destinada a pequenos empreendedores, representa apenas 4% do total contratado por elas, mostrando uma percepção de maior risco pelas instituições financeiras e dificuldades na oferta de garantias.

Crescimento do uso do crédito rotativo e suas implicações financeiras

Nos últimos quatro anos, houve um aumento de 55% no uso das modalidades de crédito que geram dívida com juros no cartão, como o crédito rotativo e o parcelamento de faturas. Em 2020, 34 milhões de pessoas utilizavam essas modalidades, número que saltou para 52,8 milhões em 2024, mais da metade dos usuários com cartão ativo. Esse crescimento impacta diretamente as condições financeiras das famílias, especialmente das mulheres negras, que enfrentam maiores custos.

Impacto da disparidade de gênero na educação financeira e acesso ao crédito

A pesquisa revela que o endividamento de risco é mais prevalente entre as mulheres, atingindo 15,4% das tomadoras de crédito, contra 12,1% entre os homens. A falta de conhecimento técnico financeiro e a dificuldade em acessar financiamentos para pequenos negócios dificultam a mobilidade financeira das mulheres, que pagam taxas de juros cerca de 4 pontos percentuais superiores às dos homens empreendedores. Essa situação decorre da percepção de maior risco, ausência de histórico formal de crédito e menor posse de bens registrados.

Avanço da bancarização e desafios para a inclusão financeira qualificada

O relatório também aponta que 96,4% da população adulta brasileira possui relacionamento com instituições financeiras, impulsionado pela criação do Pix e pela adoção de fintechs, que atraem principalmente o público jovem. Entretanto, Izabela Correa, diretora de Cidadania e Supervisão de Conduta do Banco Central, destaca que o avanço no acesso ao crédito deve ser acompanhado por políticas de educação financeira para garantir que o uso do crédito seja responsável e inclusivo, especialmente para grupos vulneráveis como as mulheres negras.

Esses achados evidenciam a urgência de estratégias que não apenas ampliem o acesso ao crédito, mas que também reduzam as desigualdades nos custos financeiros enfrentados por mulheres negras, promovendo assim uma cidadania financeira mais justa e equitativa no Brasil.

Fonte: bemparana.com.br