Varejo brasileiro sofre contração de 1,5% em abril, pior em quase 4 anos

Combustíveis puxam setor para baixo enquanto juros elevados freiam consumo das famílias

Varejo brasileiro sofre contração de 1,5% em abril, pior em quase 4 anos
Setor varejista enfrenta pressão de combustíveis e juros elevados. Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil

Vendas no varejo recuam 1,5% em abril, marcando a queda mensal mais intensa desde junho de 2022, bem abaixo das expectativas de mercado.

Varejo Brasileiro Enfrenta Seu Pior Mês em Quase Quatro Anos

O setor varejista do Brasil registrou contração de 1,5% em abril comparado ao mês anterior, representando a desaceleração mais intensa desde meados de 2022 e marcando o primeiro recuo nas vendas em 2026. Embora o resultado anual aponte avanço de 1,0%, os números ficaram significativamente aquém das projeções de mercado, que estimavam estabilidade bem menor e crescimento anual robusto.

Combustíveis Lideram Pressão no Varejo

O segmento de combustíveis e lubrificantes emergiram como principal fator depressivo das vendas, apresentando queda de 6,2% em abril. Este movimento refletiu tanto dinâmicas de preços internacionais quanto padrões de consumo de energia. Paralelamente, seis das oito atividades varejistas monitoradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apresentaram retrações, sinalizando um cenário de consumo generalizado mais fraco.

Outros setores que registraram performance negativa incluem artigos de uso pessoal e doméstico (-4,6%), equipamentos de informática e escritório (-4,5%), além de segmentos menores como móveis e eletrodomésticos (-0,8%), vestuário (-0,1%) e produtos farmacêuticos (-0,1%). Apenas hiper e supermercados (1,3%) e segmento editorial (1,1%) conseguiram apresentar crescimento no período.

Juros Elevados Continuam Constrangendo Demanda

A taxa Selic permanecia em 14,5% no mês de abril, mantendo o custo do crédito em patamares restritivos para famílias e empresas. Esse ambiente macroeconômico desafiador compensa parcialmente a força relativa do mercado de trabalho, que continua oferecendo suporte ao consumo através de emprego robusto. Especialistas observam que medidas de estímulo governamentais ajudam a amortecer a contração, evitando quedas ainda mais profundas.

O gerente de pesquisa responsável pela coleta de dados explicou que os três primeiros meses do ano apresentaram crescimento sequencial expressivo, criando uma base de comparação elevada. Esse efeito estatístico de base contribui para amplificar a queda mensal observada em abril, já que o patamar histórico atingido no primeiro trimestre se mostrou insustentável.

Consumo das Famílias Enfrenta Inflexão

O primeiro trimestre registrou expansão de 1,0% no consumo das famílias conforme dados de PIB, uma aceleração em relação ao período imediatamente anterior. No entanto, a trajetória se inverteu em abril, sugerindo que pressões inflacionárias e aumento do custo de vida relacionado a eventos geopolíticos começam a exercer influência mais perceptível sobre os orçamentos domésticos.

Bancos centrais monitoram esses indicadores com atenção, particularmente o Banco Central que anunciaria sua próxima decisão sobre a taxa de juros para o dia 17 de junho. Investidores e analistas avaliavam possíveis movimentos nas próximas semanas diante desse cenário de consumo em enfraquecimento.

Perspectivas e Dinâmicas de Curto Prazo

A amplitude da contração em abril estabelece um novo ponto de referência para monitoramento do varejo em 2026. Embora crescimento anual ainda seja positivo, sinais de arrefecimento começam a emergir, sugerindo que o impulso dos primeiros meses do ano pode estar perdendo força. Diferentes segmentos mostram vulnerabilidades distintas: enquanto alimentos mantêm relativa resiliência, bens duráveis e combustíveis sinalizam pressão consistente.

Especialistas destacam que dinâmicas externas — como volatilidade de preços de commodities e conflitos regionais — podem amplificar pressões internas já existentes. O caminho do varejo nos próximos meses dependerá criticamente de como o Banco Central calibra sua política monetária e de como o emprego consegue sustentar a renda familiar em contexto de inflação persistente.