Comunidade quilombola aprende técnicas de cultivo em viveiro da UEPG

Moradores da Terra Serra do Apon participam de capacitação sobre produção de mudas em parceria que alia saber ancestral e conhecimento acadêmico

Comunidade quilombola aprende técnicas de cultivo em viveiro da UEPG
Grupo de moradores da Terra Quilombola Serra do Apon em visita ao Viveiro Florestal da UEPG, na última sexta-feira

Projeto de extensão universitária promove intercâmbio de conhecimentos entre comunidade quilombola e instituição acadêmica através de viveiro de plantas e capacitações técnicas.

Conhecimento Compartilhado: Comunidade Quilombola Aprende Técnicas de Cultivo em Viveiro da UEPG

A troca de experiências entre academia e comunidade local ganhou concretude na última sexta-feira (12), quando moradores da Terra Quilombola Serra do Apon visitaram o Viveiro Florestal do Colégio Agrícola, no Campus Uvaranas, para participar de capacitação sobre produção de mudas. Aproximadamente dez pessoas da comunidade, incluindo crianças e adultos, tiveram a oportunidade de aprender técnicas que fortalecerão a estrutura produtiva já estabelecida em seu território.

Parceria Nascida da Valorização de Saberes Locais

O projeto que fundamenta essa colaboração leva o nome “Cultura Quilombola em Foco: Valorização e Preservação das Plantas Medicinais e Fitoterápicos nas Comunidades dos Campos Gerais”, vinculado ao Programa de Extensão da Educação Superior na Pós-Graduação (Proext-PG). Sua concepção inicial partiu de uma perspectiva clara: estudar as plantas medicinais que a comunidade já utilizava há gerações.

O coordenador do projeto, professor Giovani Favero, descreve a evolução do trabalho com objetividade. A proposta original era estabelecer um diálogo genuíno entre o conhecimento institucionalizado da universidade e a experiência prática acumulada pelos quilombolas. Porém, essa intenção evoluiu para algo mais tangível e imediato: criar uma estrutura que pudesse entregar resultados concretos.

Da Ideia à Construção: O Viveiro na Serra do Apon

Dessa reflexão germinou a decisão de construir um viveiro próprio na comunidade. Não se tratava apenas de concentrar espécies medicinais, mas de ampliar o leque para plantas que os moradores efetivamente utilizavam em seu cotidiano, principalmente hortaliças para consumo doméstico.

Conforme informado pelo professor, a estrutura física do viveiro foi concluída há aproximadamente quarenta dias. Agora iniciava-se a etapa igualmente importante: o acompanhamento técnico contínuo. Esse processo envolve tanto a transferência de metodologias científicas de cultivo quanto a integração respeitosa dos saberes ancestrais que a comunidade já possuía.

Aprendizados Bilaterais e Segurança Alimentar

Durante a visita ao campus, o grupo conheceu detalhes sobre técnicas específicas de propagação de plantas. Aprenderam desde a produção de mudas de araucária, espécie nativa relevante para a região, até o cultivo de roseiras e técnicas de clonagem de espécies selecionadas. A equipe do Viveiro Florestal respondeu sistematicamente às dúvidas levantadas, demonstrando disponibilidade pedagógica.

Geovano Rodrigues da Silva, um dos moradores presentes, verbalizou a experiência coletiva com entusiasmo. Destacou que a tarde representou um aprendizado significativo que seria disseminado entre seus pares. Enfatizou ainda a importância da dimensão colaborativa: o trabalho em equipe permitiria que a comunidade produzisse suas próprias verduras, transformando conhecimento em alimento para suas famílias.

Continuidade do Processo e Próximos Passos

O professor Giovani Favero reafirma que o processo é contínuo. A estrutura construída representa apenas o início. Há um grande aprendizado pela frente, tanto na absorção de técnicas por parte dos moradores quanto na compreensão que a universidade terá ao trabalhar com esses saberes ancestrais. Essa sinergia dupla—onde ambos os lados aprendem e ensinam—configura o diferencial do projeto.

A iniciativa exemplifica como instituições de ensino superior podem funcionar não como centros de transferência unidirecional de conhecimento, mas como espaços de genuína colaboração onde comunidades quilombolas veem reconhecido e valorizado seu patrimônio intelectual. O viveiro na Serra do Apon, assim, transcende sua função agronômica: torna-se símbolo de respeito epistemológico e compromisso com segurança alimentar e autonomia comunitária.