Endividamento e uso de cartão de crédito como renda: um desafio persistente no Brasil

A precariedade financeira faz com que muitos brasileiros dependam do cartão de crédito para despesas básicas.

Endividamento e uso de cartão de crédito como renda: um desafio persistente no Brasil
Quando o aperto financeiro vira desespero, muitas famílias deixam de usar o cartão de crédito como mero meio de pagamento. Foto: Rupixen.com/Unsplash

O uso do cartão de crédito como complemento de renda persiste entre as famílias brasileiras, em meio a um cenário de endividamento elevado.

Endividamento e uso de cartão de crédito como renda no Brasil

O Brasil dos indicadores macroeconômicos mostra um cenário em aparente melhora, com inflação em desaceleração e números de endividamento dando sinais de recuo nas estatísticas mais recentes. No entanto, quando o foco se desloca para o dia a dia das famílias, a realidade é bem menos confortável. A conta de luz mais cara, o cartão de crédito usado como complemento de renda e um nível de inadimplência ainda elevado indicam que a sensação de aperto permanece.

Segundo levantamento do Serasa, 80.436.532 brasileiros estão endividados, com 321 milhões de dívidas ativas que somam R$ 509 bilhões em todo o país. O valor médio devido por pessoa ultrapassa R$ 6,3 mil, enquanto cada dívida individual gira em torno de R$ 1.584,96, revelando um quadro pulverizado, mas persistente de compromissos em atraso.

Impacto dos juros altos e do uso do crédito

Os juros altos e o uso do cartão de crédito para despesas essenciais empurram cada vez mais famílias ao vermelho. Análises indicam que 28,8% da renda das famílias está comprometida com dívidas, o maior nível da série histórica. Desse total, 10,23% da renda é destinada exclusivamente ao pagamento de juros, recursos que poderiam ser usados para financiar alimentação, transporte, educação ou qualquer forma de consumo que gere bem-estar.

O endividamento apresenta um recorte geracional e de gênero: 33,6% dos inadimplentes têm entre 26 e 40 anos, com leve predominância feminina, onde 50,5% das dívidas estão no nome de mulheres. A maior parte das dívidas se concentra nas faixas de menor renda, onde qualquer desequilíbrio pode levar o orçamento ao vermelho. Entre as famílias com até três salários mínimos, 82,5% estão endividadas.

O cartão de crédito como complemento de renda

Quando o aperto financeiro se torna insustentável, muitas famílias deixam de usar o cartão de crédito apenas como meio de pagamento e o transformam em um complemento de renda. Luiz Fernando Mamede, um jovem autônomo, descreve essa mudança de comportamento: “O cartão de crédito acaba que hoje em dia é uma bola de neve. Usamos para comprar alimento, porque o dinheiro do final do mês não supre todas as contas”.

Em um ambiente de juros altos, o preço de estender o prazo de pagamento se torna exorbitante, com a Selic permanecendo em 15% ao ano. Mesmo com uma inflação acumulada em 4,4% em 12 meses, itens essenciais pressionam o orçamento, tornando o espaço para amortizar dívidas cada vez menor.

Desafios enfrentados por microempresários

Os desafios não se restringem às famílias endividadas; microempresários também sentem o peso do aperto financeiro. Vanda Cristina Pereira, mãe de seis filhos e microempresária, relata que o cálculo diário para manter seu negócio e as contas em dia é extenuante. “Renegociar virou rotina, e o limite do cartão é a última fronteira antes de o atraso se transformar em inadimplência”, afirma.

A solução passa pela educação financeira e crédito acessível

Especialistas apontam que, para quebrar o ciclo do endividamento, é necessário um crédito mais barato e previsibilidade de longo prazo. Programas de renegociação, como o Desenrola, têm sido um alívio temporário, mas não resolvem o problema estrutural do endividamento. A presidente da Comissão de Risco da Fenaprevi, Ana Flávia Ribeiro, destaca a importância de seguros ligados ao crédito, que podem atuar como um amortecedor em momentos de crise.

A demanda por proteção financeira cresce, com o setor de seguros de pessoas movimentando bilhões em prêmios. O seguro prestamista, por exemplo, pode garantir a quitação de dívidas em caso de desemprego ou outras dificuldades. No entanto, a solução para a desigualdade de renda e o alto custo do crédito ainda é um desafio a ser enfrentado no Brasil.

Conclusão: um desafio contínuo

O contraste entre a desaceleração da inflação e a persistência da inadimplência resume a realidade do Brasil. Enquanto alguns indicadores mostram melhora, muitos brasileiros continuam a sentir o sufoco financeiro, especialmente entre os mais pobres e pequenos empreendedores. A combinação de educação financeira, renegociação de dívidas e soluções como o seguro prestamista são essenciais para mitigar os impactos do endividamento e fomentar um futuro mais estável.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

Fonte: Rupixen.com/Unsplash