O trem do amor: ucranianas visitam maridos em zona de guerra

Histórias de esperança e reencontros em meio ao conflito

O trem do amor: ucranianas visitam maridos em zona de guerra
Apesar do perigo, Sasha embarca com entusiasmo na jornada que a levará de Kiev a Kramatorsk. Foto: Matthew Goddard/BBC

O 'trem do amor' leva ucranianas até seus maridos na linha de frente. Uma viagem repleta de desafios e esperança.

A guerra na Ucrânia trouxe desafios inimagináveis para seus cidadãos, mas também revelou histórias de amor e resiliência. O “trem do amor” é uma dessas iniciativas que permite que mulheres ucranianas visitem seus maridos que lutam na linha de frente, mesmo com o constante perigo e a incerteza que cercam essas viagens.

O cenário de esperança e perigo

Sasha, uma jovem de 22 anos, embarca em um trem noturno em Kiev com destino a Kramatorsk, uma cidade na região de Donetsk, marcada por intensos conflitos. O temor pela segurança de seu marido, Dmytro, um militar, é palpável. “Não estou preocupada comigo, mas com meu marido. No momento, ele está saindo de seu posto”, relata. Essa viagem, embora exaustiva e perigosa, é um símbolo de esperança para Sasha e outras mulheres como ela.

Desde a suspensão dos serviços de trem em Donetsk em novembro de 2025, devido ao aumento dos ataques, as viagens se tornaram mais complicadas. Os trens não podem mais parar em Kramatorsk, obrigando as viajantes a fazer uma transferência em uma cidade a duas horas de ônibus. Sasha comenta: “Durante essa transferência, tudo pode acontecer, mas é bom que os trens ainda estejam funcionando, porque isso nos dá esperança”.

Momentos de reencontro

Os reencontros são momentos carregados de emoção. Sasha, que se casou em agosto de 2025, viaja para Kramatorsk mensalmente, sempre esperando pela brecha que Dmytro consegue em sua rotina militar. “Quando ele dorme ao meu lado, não tenho medo de nada”, diz, revelando o conforto que encontra na presença dele.

A viagem, no entanto, é cheia de obstáculos. O trem de alta velocidade que Dmytro pega frequentemente enfrenta atrasos devido a bombardeios. Sasha narra que, em uma ocasião, teve que convencer uma taxista a levá-la por uma estrada cheia de buracos e neblina, uma situação que poderia ser cômica em tempos normais, mas que, em sua realidade, é um desafio constante.

O impacto emocional das separações

Polina, outra viajante, também compartilha sua experiência de visitar Andriy, que se alistou no exército. Ela afirma que os relacionamentos à distância são difíceis, especialmente em tempos de guerra. “Quando Andriy não responde, me preocupo. Cada reencontro é como se tivéssemos que nos acostumar novamente com a presença um do outro”, reflete Polina, demonstrando a fragilidade emocional que essas separações impõem.

Cada chegada e partida é marcada por um misto de alegria e tristeza. As mulheres desembarcam com cuidado, muitas vezes em meio à névoa da noite, que traz uma estranha sensação de tranquilidade em um cenário de guerra. As histórias se entrelaçam, revelando a luta por amor em tempos de adversidade.

O futuro incerto

O trem do amor não é apenas um meio de transporte, mas um símbolo de esperança. À medida que as autoridades locais pedem que os moradores deixem suas casas em busca de segurança, essas viagens se tornam uma linha tênue entre a vida e a morte. Todos os dias, cerca de 200 pessoas procuram abrigo em centros de evacuação, enquanto outras continuam a arriscar suas vidas para se encontrar com seus entes queridos.

Sasha conclui: “Já estou ansiosa pelo próximo reencontro. Não há tempo para lágrimas ou desespero.” Em um mundo em guerra, o amor e a esperança continuam a ser a força motriz que impulsiona essas mulheres em suas jornadas, enfrentando qualquer desafio que surgir em seu caminho.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

Fonte: Matthew Goddard/BBC