Planejamento estatal e investimentos impulsionam controle chinês sobre minerais essenciais

A China consolidou seu domínio sobre terras raras em mais de seis décadas, transformando esses minerais em alavancas geopolíticas e econômicas essenciais na economia global.
O domínio da China sobre as terras raras, minerais essenciais para uma ampla gama de tecnologias modernas, é resultado de uma estratégia estatal desenvolvida ao longo de mais de seis décadas. Essa trajetória começou em 1964, quando geólogos chineses identificaram um enorme depósito desses metais na região de Baotou, norte do país. Na época, o então dirigente do Partido Comunista, Deng Xiaoping, já destacava a importância estratégica desses recursos, vinculando seu desenvolvimento à indústria do aço e à priorização do setor.
Uma estratégia estatal de longo prazo
Durante os anos 1970, mesmo em meio às turbulências da Revolução Cultural, o Exército de Libertação Popular investiu em pesquisas para aplicações militares das terras raras. O químico Xu Guangxian foi fundamental ao desenvolver um método acessível e eficiente para purificar esses metais, superando um grande gargalo tecnológico da época. A partir dos anos 1980 e 1990, sob a liderança de Deng Xiaoping e Wen Jiabao, o governo centralizou o setor, fechou operações ilegais e combateu o contrabando, consolidando o controle estatal sobre toda a cadeia produtiva.
O desenvolvimento tecnológico externo, como a descoberta nos Estados Unidos e Japão dos ímãs ultrapotentes de terras raras, levou a China a adquirir essas tecnologias e transferir a produção para seu território, ampliando sua capacidade industrial e know-how. Um episódio emblemático foi a compra da subsidiária americana Magnequench em 1995, marcando o início do domínio chinês na fabricação em escala industrial.
Impactos geopolíticos e controle exportador
A influência da China tornou-se evidente em 2010, quando Pequim suspendeu exportações de terras raras ao Japão durante uma disputa territorial, usando o fornecimento mineral como instrumento de pressão diplomática. Desde então, o país intensificou controles e repressões sobre contrabando, reafirmando seu comando sobre o setor.
Sob a presidência de Xi Jinping, as terras raras passaram a ser explicitamente consideradas recursos estratégicos. Em 2024, novos controles de exportação foram implementados, afetando cadeias produtivas no Ocidente e pressionando negociadores, como os Estados Unidos, comparando-se o impacto a embargos históricos como o do petróleo na década de 1970.
Educação, pesquisa e tecnologia: pilares do domínio chinês
A China investe massivamente em educação e pesquisa especializada para sustentar seu avanço. Programas universitários dedicados ao estudo das terras raras superam em quantidade e qualidade os oferecidos no Ocidente. A refinaria em Wuxi, próxima a Xangai, exemplifica essa capacidade, tendo desenvolvido processos para refinar o disprósio — uma terra rara indispensável em dispositivos de controle elétrico avançados, inclusive em chips de inteligência artificial.
Recentemente, a aquisição majoritária da refinaria por uma empresa estatal chinesa e o subsequente embargo na exportação de disprósio para os EUA e aliados reforçam a estratégia de controle do fornecimento.
Serviço e influência global
O domínio da China sobre as terras raras resulta em:
Controle da Cadeia Global: A quase totalidade da produção e refino está concentrada na China, condicionando o acesso global a esses insumos.
Poder Geopolítico: O uso dos minerais como instrumento de pressão política e econômica, afetando negociações e relações internacionais.
Inovação e Competitividade: Alavancagem sobre tecnologias limpas, eletrônicos avançados e defesa, setores estratégicos para o futuro.
Desafios para o Ocidente: Dependência crescente e necessidade de diversificação e investimento em pesquisa para reduzir vulnerabilidades.
Essa realidade impõe reflexões importantes para políticas industriais, comerciais e estratégicas globais, especialmente diante do aumento da demanda por tecnologias sustentáveis e de alta performance nas próximas décadas.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: The New York Times





