Crianças aprendem distraídas graças a atenção ampla do cérebro infantil

Estudo canadense revela que a distração em crianças reflete um mecanismo natural de aprendizagem, diferente do foco adulto

Crianças aprendem distraídas graças a atenção ampla do cérebro infantil
Crianças aprendendo em ambiente escolar demonstrando atenção ampla e curiosidade. Foto: Diego Padgurschi/Folhapress

Pesquisa mostra que crianças aprendem mesmo quando parecem distraídas, revelando atenção menos seletiva e aprendizado natural.

A aprendizagem em crianças ocorre mesmo durante distrações naturais

O estudo canadense realizado pela Universidade de Toronto, publicado na revista Psychological Science, destaca que crianças de 7 a 9 anos aprendem conteúdos visuais tanto quando focam diretamente neles quanto quando parecem distraídas realizando outras atividades. Essa peculiaridade acontece porque o sistema de atenção seletiva, comum nos adultos, ainda está em desenvolvimento no cérebro infantil. Bianca Batista Dalmaso, psicóloga do Einstein Hospital Israelita, explica que o córtex pré-frontal, responsável por controlar o foco e a inibição de estímulos irrelevantes, ainda amadurece nessa faixa etária, o que permite uma atenção mais ampla.

Mecanismos cerebrais que sustentam a atenção ampla nas crianças

As crianças apresentam um processamento cognitivo que não filtra estímulos com a mesma eficiência que os adultos. Esse funcionamento amplo do cérebro potencializa uma aprendizagem incidental, ou seja, a aquisição de conhecimentos vindos de múltiplas fontes simultâneas no ambiente. Enquanto o cérebro adulto tem filtros precisos para evitar a sobrecarga, o infantil permite maior sensibilidade a ruídos, imagens e sons ao redor, o que favorece a exploração e a curiosidade, elementos fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e criativo.

Implicações do estudo para a educação e desenvolvimento infantil

A constatação de que crianças aprendem mesmo em contextos de distração desafia a ideia tradicional de que a concentração absoluta é necessária para o aprendizado. Isso sugere que ambientes educacionais ricos em estímulos variados — como jogos, experiências sensoriais e interações sociais — podem ser benéficos para o repertório infantil. Além disso, a abordagem pedagógica deve reconhecer que a atenção das crianças não é sinônimo de olhar fixo, mas sim um processo dinâmico que inclui movimento e brincadeiras, facilitando o aprendizado integrado.

Diferenças entre aprendizado infantil e adulto evidenciadas na pesquisa

No experimento, adultos aprenderam mais quando focados exclusivamente na tarefa, enquanto crianças mantiveram o mesmo nível de aprendizado independente da instrução de atenção. Isso reforça a ideia de que o cérebro adulto tem maior controle inibitório e seletividade atencional, ao contrário da mente infantil que absorve estímulos de maneira mais difusa. Essa diferença cognitiva explica por que adultos tendem a ignorar informações não centrais, enquanto crianças captam facilmente múltiplas informações simultaneamente.

A distração como ferramenta natural para a exploração do mundo infantil

Para a psicóloga Bianca Dalmaso, o que é comumente interpretado como distração pode ser uma estratégia eficiente para as crianças explorarem o ambiente e ampliarem seu conhecimento. Elas aprendem com estímulos diversos, desde conversas até barulhos e desenhos presentes ao redor. Esse processo contribui para a construção do repertório e desenvolvimento da criatividade, salientando que é crucial diferenciar a exploração produtiva da sobrecarga sensorial, respeitando o ritmo e as necessidades de cada criança.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

Fonte: Diego Padgurschi/Folhapress