Mudança na política externa americana diminui espaço para diplomacia e complica mediação regional
Trump adota postura militar agressiva no segundo mandato e reduz foco na diplomacia, segundo ex-assessor Elliott Abrams.
O segundo mandato do presidente Donald Trump trouxe uma guinada significativa na postura dos Estados Unidos em política externa, com a adoção de uma estratégia militar mais agressiva em detrimento da diplomacia tradicional. Segundo Elliott Abrams, ex-assessor republicano e enviado especial para Venezuela e Irã durante o primeiro mandato de Trump, a mudança se deu após um período inicial de cautela, com destaque para o bombardeio que matou o chefe militar iraniano Qassim Suleimani em 2020.
Mudança da cautela para a força militar
Durante o primeiro mandato, Trump seguiu principalmente os conselhos de assessores mais experientes que recomendavam prudência no uso da força bélica. No entanto, na volta à Presidência, o cenário mudou drasticamente: o presidente autorizou ataques a países como Somália, Iraque, Iêmen, Síria e Nigéria, além de operações militares contra instalações nucleares do Irã. A ação mais arriscada foi a tentativa de capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, além de ameaças explícitas à Colômbia e à anexação da Groenlândia.
Abrams destaca que decisões impensáveis no primeiro mandato, como invadir a Venezuela, se tornaram realidade, surpreendendo inclusive especialistas da própria administração. Essa mudança reflete a crescente confiança de Trump na eficácia das operações militares rápidas e pontuais, que evitaram baixas entre soldados americanos e não desencadearam guerras prolongadas como as do Iraque e Afeganistão.
Impacto na diplomacia e mediação regional
A intensificação do uso da força reduziu o espaço para negociações diplomáticas e para a atuação de atores regionais na mediação de conflitos. O Brasil, por exemplo, vê seu papel questionado especialmente na Venezuela, já que seu histórico de aproximação com Caracas dificulta uma interlocução equilibrada com a oposição venezuelana, que pode perceber o governo Lula como excessivamente alinhado a Maduro.
Abrams expressa dúvidas sobre a capacidade do Brasil de mediar eficazmente, uma vez que a oposição venezuelana não enxerga Brasília como neutra, o que limita a atuação do país em um momento de alta tensão.
Aprendizado e consequências da nova estratégia
A guinada militar de Trump é atribuída a uma autocrítica do presidente, que passou a discordar dos conselhos de cautela recebidos anteriormente. Um exemplo foi o apoio tardio a protestos contra o regime iraniano, que inicialmente evitava para não prejudicar a oposição local. Agora, Trump não apenas apoia os manifestantes, mas também adota uma postura ameaçadora contra Teerã.
O êxito das operações militares, especialmente a em Caracas, reforçou a crença do presidente na eficácia da força e contribuiu para seu prestígio junto à base eleitoral, que prefere ações rápidas e de baixo custo humano.
Desafios futuros e incertezas
Apesar dos sucessos iniciais, Trump enfrenta desafios para consolidar os resultados obtidos. Na Venezuela, o cenário permanece incerto, com o regime de Maduro ainda no poder e sem um plano público claro para a transição democrática ou próximas eleições. No Irã, a situação é ainda mais complexa, com a possibilidade de intervenções militares ainda em aberto, mas com riscos elevados devido à capacidade militar iraniana e à indefinição dos objetivos pós-regime.
Abrams ressalta que, enquanto os Estados Unidos avaliam estratégias, continuam apoiando protestos e aplicando sanções econômicas, refletindo sobre as implicações de uma eventual mudança de regime que pode transformar não apenas o Irã, mas também países vizinhos como Iraque, Líbano e Iêmen.
A transformação no uso do poder militar por parte de Trump redefine o papel dos Estados Unidos no cenário internacional e provoca repercussões diretas nas possibilidades de mediação diplomática e estabilidade regional, especialmente na América Latina e no Oriente Médio.

Foto: Evelyn Hockstein/REUTERS





