Ángel Godoy manteve contato com a esposa durante prisão com mensagens escondidas dentro de balas

Preso político na Venezuela, Ángel Godoy usou bilhetes escondidos em balas para se comunicar com a esposa durante mais de um ano de prisão sob o regime de Maduro.
Ángel Godoy, preso político na Venezuela, usou um método inusitado para se comunicar com sua esposa durante mais de um ano de detenção: bilhetes escondidos dentro de balas. Essa estratégia singular permitiu a manutenção do vínculo afetivo e da esperança em meio à repressão do regime de Nicolás Maduro.
O início da prisão e as acusações
Godoy foi capturado em 8 de janeiro de 2025, ao chegar em casa, e acusado de terrorismo, incitação a ações armadas e ódio, acusações comuns contra prisioneiros políticos na Venezuela, mas que ele nega veementemente. A prisão ocorreu após homens mascarados, sem insígnias oficiais, o levarem em uma van com vidros escuros. Nos primeiros meses, sua família enfrentou o silêncio e a incerteza, sem contato por 96 dias.
Comunicação secreta por bilhetes em bala
Durante a prisão, Godoy e sua esposa Adriana, casados há 19 anos, mantiveram contato por meio de mensagens escritas em pequenos papéis, que eram colocados dentro dos papéis de embrulho de balas. Adriana enviava palavras de incentivo e notícias, enquanto Godoy respondia com mensagens carinhosas, como “Eu te amo mais do que a própria vida”. Esses bilhetes eram contrabandeados para fora da prisão na roupa suja recolhida por Adriana durante as visitas.
Condições e processo judicial
Godoy passou por várias prisões, entre elas o El Helicoide, conhecido centro de tortura em Caracas. Seu processo judicial foi marcado por audiências realizadas por telefone, consideradas “vergonhosas” por ele. Apesar da dureza da situação, a esperança da família permaneceu firme, simbolizada pelas mensagens e pequenos objetos trazidos da prisão, como uma bola de pano com mensagens para o filho e um ursinho de pelúcia feito por outros presos.
Libertação e retorno à família
Após 371 dias detido, Godoy foi libertado em meio a um processo onde cerca de 143 dos quase 900 prisioneiros políticos na Venezuela foram liberados, num cenário marcado pela captura do ditador Maduro por forças dos Estados Unidos. Sua libertação gerou comoção dentro da prisão e emoção ao reencontrar a família em Los Teques, perto de Caracas.
Ainda sob restrições — proibido de deixar o país e obrigado a comparecer mensalmente ao tribunal —, Godoy voltou a sua rotina, reencontrando o filho, que já havia se formado no ensino médio, e compartilhando momentos com a esposa. A mesa na sala de jantar mantinha a decoração natalina enquanto ele se adaptava à vida fora da prisão, simbolizando a continuidade e a resistência da família.
Impacto político e social
A história de Ángel Godoy ilustra o uso de métodos criativos e corajosos para enfrentar a repressão em regimes autoritários. Sua experiência evidencia a situação dos prisioneiros políticos venezuelanos e a persistência das famílias em meio a um sistema judicial e prisional marcado por violações de direitos humanos. A comunicação por bilhetes dentro de balas se tornou um símbolo da luta contra o silêncio imposto pelo Estado e da importância das conexões humanas para resistir à opressão.
Memórias e símbolos da prisão
Objetos trazidos da prisão mantêm viva a memória do período difícil: desde a mesa de plástico onde Godoy escreveu um versículo bíblico sobre não temer o mal, até os presentes feitos por colegas presos. Estas lembranças materializam a resistência e a esperança durante a detenção.
A libertação de Godoy ocorre em um contexto ainda delicado para os direitos humanos na Venezuela, onde a máquina repressiva do governo Maduro permanece ativa, e a liberdade de expressão e política continua ameaçada.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Alejandro Cegarra /NYT





