Análise geoespacial de 12 anos revela concentração regional de mortes hospitalares por pneumonia, sepse e infecção urinária no estado de São Paulo
Estudo da Unifesp revela desigualdade na mortalidade por infecções em hospitais do SUS paulista, com mortes concentradas em regiões específicas.
Desigualdade na mortalidade por infecções impacta hospitais do SUS paulista
A desigualdade na mortalidade por infecções em hospitais do SUS paulista foi evidenciada em estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que analisou mais de 30 milhões de internações realizadas em 12 anos no estado de São Paulo. A pesquisa mostra que, apesar de pneumonia, sepse e infecção do trato urinário (ITU) ocorrerem em volumes semelhantes entre municípios, as mortes decorrentes dessas doenças se concentram em regiões específicas, apontando fragilidades na capacidade de resposta do sistema público.
Carlos Kiffer, professor de infectologia da Unifesp e pesquisador do Grupo de Análise em Infecções e Antimicrobianos (Gaia), destaca que a análise geoespacial dos dados do DataSUS revelou padrões não aleatórios de letalidade ligados a fatores territoriais, como infraestrutura e organização dos serviços de saúde.
Diferenças regionais na letalidade por pneumonia, sepse e infecção urinária
As internações por pneumonia foram distribuídas de forma relativamente homogênea pelos municípios, representando 5,1% de todas as hospitalizações no período, com 1,57 milhão de casos e letalidade de 17,7% — quase 280 mil mortes em 12 anos. Apesar da incidência uniforme, a mortalidade se concentrou em aglomerados regionais, demonstrando desigualdades na qualidade do tratamento.
A sepse apresentou cenário ainda mais alarmante, respondendo por 1,8% das internações, mas com letalidade hospitalar de 55,4%, totalizando mais de 300 mil mortes. Essa taxa supera a observada em países como Japão e Estados Unidos. A sepse também apresentou concentração de internações em regiões com maior infraestrutura, mas a letalidade se espalhou, indicando que mesmo áreas estruturadas enfrentam desafios graves.
As infecções urinárias, correspondendo a 2,4% dos internamentos (cerca de 726 mil casos), tiveram letalidade de 8,6%, valor elevado considerando que essa condição é geralmente tratável. Diferentemente da pneumonia, não houve padrão claro de internações, mas clusters de mortalidade surgiram em municípios específicos.
Fatores estruturais e sociais que influenciam a letalidade hospitalar
O estudo atribui as desigualdades na mortalidade a uma complexa combinação de fatores, incluindo características populacionais, infraestrutura hospitalar, qualidade dos serviços, acesso a antibióticos eficazes e rapidez no diagnóstico. Kiffer ressalta que o acesso a leitos de UTI, exames e profissionais qualificados impacta significativamente os desfechos.
Ana Gales, infectologista e coordenadora do Comitê de Resistência Bacteriana da Sociedade Brasileira de Infectologia, destaca que o letramento em saúde e o acesso desigual aos cuidados contribuem para o agravamento dos quadros infecciosos. Populações com menor acesso tendem a buscar atendimento em estágios mais avançados da doença, elevando a mortalidade.
Dentro dos hospitais, as diferenças também são marcantes entre unidades localizadas em áreas centrais e periféricas, com a última enfrentando limitações em recursos e dificuldade para retenção de profissionais experientes.
Importância dos mapas de letalidade para políticas públicas eficazes
A pesquisa reforça o potencial de uso de mapas geoespaciais para identificar regiões onde as infecções não apenas ocorrem, mas causam mais mortes. Esses dados são essenciais para direcionar investimentos e estratégias de fortalecimento do sistema de saúde nas regiões mais afetadas.
No entanto, especialistas apontam que a falta de integração entre dados epidemiológicos, clínicos e microbiológicos limita a compreensão completa dos fatores envolvidos. Também há carência de informações abrangentes sobre hospitais de menor porte e unidades secundárias, que constituem a maior parte do sistema.
Desafios na comunicação e combate à resistência antimicrobiana
Além das questões estruturais, a comunicação eficaz com a população sobre o impacto das infecções e da resistência aos antibióticos é fundamental. Termos sensacionalistas como “superbactéria” podem desviar a atenção da responsabilidade do sistema e gestores.
Ana Gales enfatiza que as bactérias resistentes podem ser combatidas com políticas públicas adequadas, acesso a diagnóstico e tratamentos apropriados, ressaltando a necessidade de conscientização alinhada à ciência.
Este estudo ilumina a urgência de ações coordenadas para reduzir as desigualdades na mortalidade por infecções no SUS paulista, assegurando acesso equitativo a cuidados de qualidade e fortalecendo a infraestrutura hospitalar em todo o estado.





