A precificação dinâmica aplicada em serviços de transporte por aplicativo levanta dúvidas entre usuários e especialistas sobre seus critérios e impactos
Usuários e especialistas questionam a falta de clareza nos critérios do preço dinâmico em corridas por app, que varia conforme demanda e outras variáveis.
Panorama da precificação dinâmica em corridas por aplicativo
O preço dinâmico em corridas por app tem gerado pressão entre os usuários e questionamentos de especialistas sobre a transparência na formação dos valores cobrados. Segundo as maiores plataformas no Brasil, Uber e 99, essa modalidade ajusta o preço em tempo real conforme a demanda, condições climáticas, trânsito, eventos e outros fatores. A inteligência artificial utilizada calcula o valor máximo que o passageiro estaria disposto a pagar no momento, buscando equilibrar oferta e demanda e incentivar motoristas a se conectarem.
Falta de clareza nos critérios e impactos para os consumidores
Especialistas destacam que o preço dinâmico em corridas por app não reflete apenas variações tradicionais de oferta e demanda, mas envolve modelos complexos e pouco transparentes. Beatriz Kira, professora de direito na Universidade de Sussex, aponta que o consumidor não tem acesso aos critérios exatos que definem o valor final, o que não ocorre nos mercados tradicionais. Essa invisibilidade dificulta a avaliação da justiça do preço cobrado e amplia a vulnerabilidade do passageiro.
Reações das plataformas e defesa do modelo
Uber e 99 justificam que os preços dinâmicos são fundamentais para garantir o equilíbrio do mercado e a disponibilidade de motoristas. Informam que alertam os usuários quando os valores estão elevados e que o passageiro pode optar por aceitar o preço ou aguardar uma tarifa menor. No entanto, as empresas não divulgam quais dados específicos alimentam os algoritmos nem como esses são ponderados, preservando seus modelos proprietários.
Consequências para motoristas e desafios na remuneração
Entre os motoristas, há reclamações sobre a divisão pouco clara do valor final da corrida. A remuneração muitas vezes não acompanha o aumento do preço pago pelo passageiro, gerando dúvidas sobre qual parcela fica com a plataforma. Um motorista com nove anos de experiência relata que a taxa cobrada pelas empresas tem variado e que só consegue conferir a remuneração exata no extrato mensal, o que dificulta o planejamento financeiro.
Riscos legais e sociais da precificação dinâmica mal regulada
O Código de Defesa do Consumidor prevê punições para aumentos injustificados de preço, e especialistas do Idec alertam que a precificação dinâmica pode ser considerada prática abusiva por explorar a disposição do usuário em pagar mais. A ausência de supervisão sobre os algoritmos eleva o risco de discriminação econômica e social, reforçando desigualdades. A economista Lilian Marques lembra que a personalização extrema de preços pode se aproximar da discriminação de preços de primeiro grau, ampliando lucros em detrimento da competição saudável.
Debate regulatório e perspectivas futuras
O cenário atual motivou a proposição do PL 4.675/2025, que visa regulamentar mercados digitais e exigir maior transparência na formação de preços em plataformas digitais de relevância sistêmica. A iniciativa tenta equilibrar o desenvolvimento tecnológico com a proteção do consumidor e a garantia de práticas justas. O debate promete avançar com a crescente digitalização dos serviços e a intensificação do uso de inteligência artificial nos processos comerciais.





