Venezuela aprova anistia com restrições para presos de protestos políticos

Nova lei perdoa participantes de manifestações, mas exclui condenados por rebelião militar em 2019 e mantém sanções e retenção de bens

Venezuela aprova anistia com restrições para presos de protestos políticos
Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, durante evento em 19 de fevereiro de 2026

Assembleia da Venezuela aprova anistia para presos de protestos, excluindo condenados por rebelião militar em 2019 e sem devolução de bens.

Contexto da aprovação da anistia para presos políticos na Venezuela

A Assembleia Nacional da Venezuela aprovou por unanimidade, em 19 de fevereiro de 2026, uma lei de anistia para presos políticos ligados a protestos no país, visando pacificar o cenário político após anos de conflitos. A anistia para presos por protestos abrange ações relacionadas a confrontos políticos desde o golpe de 2002 até as eleições presidenciais de 2024. O presidente da Assembleia, Jorge Rodríguez, destacou a intenção de a lei “curar as feridas deixadas pelo confronto político” e promover a justiça e convivência pacífica.

Contudo, a legislação apresenta limitações importantes que influenciam diretamente seu impacto social e político, sobretudo em um país marcado por profunda polarização.

Principais limitações e exclusões da lei de anistia

Apesar de beneficiar participantes de protestos, a anistia exclui explicitamente pessoas condenadas por “rebelião militar” durante os eventos de 2019, quando houve tentativas de derrubar o governo de Nicolás Maduro. Essa exclusão afeta centenas de detidos classificados como presos políticos por organizações internacionais de direitos humanos.

Além disso, a lei não prevê a devolução dos bens confiscados dos detidos, mantendo uma penalidade econômica. Também não revoga as proibições que impedem os beneficiários de exercer cargos públicos e não cancela sanções impostas a veículos de comunicação, restringindo a plena reintegração política e social dos anistiados.

Impactos para opositores e exilados políticos

A legislação estipula que a anistia se aplica somente a pessoas que tenham cessado as ações que configuram crimes, o que pode limitar seu alcance a ativistas que continuam seu ativismo político fora da Venezuela. Além disso, ex-autoridades dissidentes que vivem no exterior para escapar de mandados de prisão não terão necessariamente seus casos resolvidos, a não ser que cumpram os critérios estabelecidos.

Com a retirada dos mandados de prisão internacionais para os beneficiados, a lei facilita o retorno de alguns exilados, porém, sem garantir a restituição de direitos políticos plenos, o que pode perpetuar o clima de insegurança jurídica para a oposição.

Repercussão e avaliação de grupos de direitos humanos

Organizações de direitos humanos avaliam que a lei, embora represente um avanço formal para a pacificação política, não atende às exigências de justiça plena para os detidos e seus familiares. A ausência de medidas sobre devolução de bens e revogação de sanções é vista como insuficiente para reparar os danos sofridos.

Além disso, a exclusão dos condenados por rebelião militar e as exigências relativas à cessação das ações criminosas indicam uma estratégia governamental para limitar o alcance da anistia a grupos considerados mais perigosos ao regime.

Perspectivas para a estabilidade política e social na Venezuela

A aprovação da anistia para presos por protestos pode ser interpretada como um gesto de abertura política do governo venezuelano, buscando conter tensões internas e melhorar sua imagem internacional. Entretanto, as restrições no texto indicam que o processo permanece controlado e seletivo.

A manutenção de sanções políticas e a não restituição de direitos plenos indicam que a convivência pacífica e a reconciliação ainda enfrentarão obstáculos significativos. O futuro da lei dependerá da aplicação prática nos tribunais e da resposta dos setores da oposição e da sociedade civil.

A decisão da Assembleia Nacional, portanto, marca um passo importante, mas insuficiente, no complexo processo de reconstrução democrática e pacificação na Venezuela.