PL antifacção limita combate às lideranças do crime organizado, alerta Sarrubbo

Ex-secretário Mario Sarrubbo critica exclusão dos grandes financiadores na lei aprovada pela Câmara dos Deputados

PL antifacção limita combate às lideranças do crime organizado, alerta Sarrubbo
Audiência pública discute combate ao crime organizado no Brasil. Foto: Agência Brasil

PL antifacção aprovado exclui grandes líderes do crime organizado e dificulta financiamento para segurança pública, critica ex-secretário Mario Sarrubbo.

O PL antifacção aprovado na Câmara dos Deputados, conhecido pela keyphrase “PL antifacção”, tem gerado debate sobre sua efetividade no combate ao crime organizado no Brasil. Segundo o ex-secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, a versão atual da lei dificultará a punição das grandes lideranças das organizações criminosas, especialmente aquelas situadas no chamado “andar de cima”.

Exclusão das lideranças maiores limita eficácia da lei antifacção

Mario Sarrubbo explicou que a legislação aprovada se concentra em criminalizar apenas os membros da base das organizações criminosas, deixando de lado os verdadeiros comandantes e financiadores. Ele ressaltou que a intenção inicial era justamente avançar contra esses grandes líderes, que operam por meio de financiamento e políticas de proteção.

Segundo ele, o foco do PL se restringiu aos crimes violentos, o que acaba liberando políticos ligados ao crime organizado e aqueles que financiam essas redes criminosas. Essa limitação reduz a capacidade das autoridades de desmantelar as estruturas que sustentam o crime.

Impactos financeiros e retirada de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública

Além das restrições legais, Sarrubbo destacou que o texto aprovado pela Câmara excluiu a taxação das apostas online (bets), medida que garantiria cerca de R$ 30 bilhões para o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP). Essa decisão prejudica significativamente os estados, que dependem desses recursos para fortalecer o combate às organizações criminosas.

O relator do PL antifacção na Câmara, Guilherme Derrite (PP-SP), rejeitou as alterações feitas no Senado, incluindo a retirada da taxação das bets, o que segundo Sarrubbo representa uma perda importante para a segurança pública. Ele argumenta que esses recursos não pertencem ao governo federal, mas seriam destinados para os estados atuarem diretamente nas ações contra o crime.

O papel das estruturas financeiras no financiamento do crime organizado

O ex-secretário explicou que a proposta inicial da lei buscava atingir aqueles que atuam em centros financeiros e tecnológicos, como a Faria Lima e fintechs, que são canais usados para financiar as facções criminosas. Ele citou a Operação Carbono Oculto como exemplo de investigação que revelou movimentações financeiras ilegais relacionadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Sarrubbo afirma que “a Faria Lima não pega fuzil”, reforçando que o combate eficaz ao crime organizado passa por alcançar os financiadores e não apenas os criminosos armados na ponta.

Estratégia do governo para asfixiar financeiramente as facções

A estratégia defendida pelo governo, conforme Sarrubbo, é cortar o fluxo financeiro das organizações criminosas para depois realizar ações policiais mais eficientes e com menor letalidade. Ele destaca que só após desorganizar e enfraquecer as facções, quando elas estiverem sem recursos para armamento e pagamento de colaboradores, as forças de segurança poderão agir com maior consistência para retomar territórios dominados pelo crime.

Essa abordagem visa reduzir o impacto da violência, evitando confrontos diretos que frequentemente resultam em mortes, e prioriza o enfraquecimento financeiro como ponto inicial do combate.

Desafios políticos e sociais na implementação da lei antifacção

A análise crítica de Sarrubbo aponta para o desafio político na aprovação de medidas que efetivamente atinjam os grandes financiadores do crime, que muitas vezes têm conexão com políticos e setores influentes da sociedade. A remoção de mecanismos financeiros importantes do texto aprovado demonstra a dificuldade de mobilizar apoio político para uma lei mais rigorosa.

Além disso, a concentração do foco da lei nos crimes violentos e na base das organizações pode limitar a eficácia das ações de segurança pública e não atacar a raiz do problema.

Essas questões indicam que, apesar do avanço legislativo, o PL antifacção ainda enfrenta obstáculos significativos para cumprir seu objetivo de combate amplo e eficaz ao crime organizado no país.