A coluna desta semana não tem a intenção de entrar em nenhuma seara política ou fazer referência jurídica sobre o tema. Mesmo porque não sou operador do Direito e não me cabe tal papel. Minha reflexão segue por outro caminho: a contradição entre o que alguém prega em nome de Deus e o que revela quando as portas estão fechadas e o microfone não está ligado.
Um pastor não é apenas um pregador. Ele é, por definição, alguém que se coloca como exemplo de vida cristã. Suas palavras têm o poder de edificar ou de destruir. Quando um pastor, no íntimo de uma conversa, solta palavrões e ameaça com agressividade, revela não apenas um deslize, mas uma incoerência brutal entre o que prega e o que pratica.
Os áudios recentes de Silas Malafaia mostram muito mais do que irritação. Mostram a rotina de um vocabulário que contrasta com a Bíblia que ele carrega. Em respeito ao leitor, vou me eximir de repetir as expressões utilizadas, mas basta dizer que não eram exatamente “glórias a Deus” ou “aleluias”. O tom foi de ofensa explícita, ameaça e descontrole. Uma performance digna de boteco, não de púlpito.
É justamente nesse ponto que a integridade de um líder espiritual deveria ser testada. A vida cristã não se mede pelo que se proclama diante da multidão, mas pelo que se diz e se faz quando ninguém está olhando. Honestidade não é performance, é essência. E um pastor que se comporta de maneira vulgar em privado mostra que o personagem da igreja talvez seja apenas uma encenação bem ensaiada.
O apóstolo Tiago foi direto: a religião de quem não refreia a língua é vã. A pergunta que fica é simples: como alguém pode guiar um rebanho se não consegue governar a própria boca? Como exigir que os fiéis sigam padrões de conduta se o próprio pastor se esconde atrás de um vocabulário de bar, em nada diferente do mundo que ele tanto critica?
Há também uma ironia cruel. Malafaia, tão acostumado a apontar o dedo e a repreender os pecados alheios com voz de trovão, tropeça exatamente naquilo que deveria dominar: a língua. O mesmo que cobra decência de políticos, jovens, casais e até artistas, não consegue sustentar decência no simples ato de falar. Fica difícil não pensar na metáfora do sepulcro caiado: por fora, uma fachada impecável; por dentro, ruído, insulto e ameaça.
E é aqui que a hipocrisia se escancara. Quem tanto se coloca como guardião da chamada “pauta dos costumes” mostra, na prática, que talvez não consiga sequer cuidar da própria boca. Como pode alguém se arrogar defensor da moral da família se usa termos que em respeito ao leitor não repito? Como pode erguer a bandeira dos bons valores se, em privado, o que se ouve é uma enxurrada de grosserias? Talvez a verdadeira pauta dos costumes seja aprender a ter costume de falar com respeito, hábito de agir com mansidão e disciplina de viver aquilo que se prega.
Conheço muitos homens e mulheres que não precisam bater no peito se dizendo homens ou mulheres de Deus. Eles não ostentam títulos, não usam microfones para se autopromover, não gritam em programas de televisão. São pessoas que vivem a fé no silêncio da bondade diária. Um vizinho que divide o pão sem esperar aplauso, uma mãe que ensina paciência aos filhos, um jovem que escolhe a honestidade mesmo quando ninguém está vendo. Esse é o retrato de alguém que carrega Deus no coração: simplicidade, mansidão, coerência entre fé e vida.
O episódio não deveria chocar pela política, mas pelo paradoxo. O púlpito se veste de autoridade espiritual, mas os bastidores revelam a verdade que o microfone não capta. E quando a distância entre discurso e prática é grande demais, o resultado é descrédito. Porque, no fim, ser homem de Deus não é título, é postura. É muito fácil falar em nome de Deus quando há holofotes. Difícil mesmo é manter a boca limpa quando se acredita estar no anonimato.
Talvez esse seja o recado que fica. O mundo não precisa de pastores que berram mais alto que os outros, mas de homens que entendam que a fé se traduz em coerência. Se as paredes escutam e os áudios vazam, não é culpa da tecnologia. É apenas a verdade, que sempre encontra um jeito de aparecer. E quando aparece, mostra que há quem pregue com a Bíblia na mão, mas viva com a língua desgovernada. No fim das contas, a grande “pauta dos costumes” que resta é a mais simples de todas: ter o costume de ser coerente.