Alta dos combustíveis já afeta cadeias de produtos químicos, plásticos e fertilizantes. Diesel pode ter impacto dez vezes maior que o direto.

O Banco Central mostra que a alta do petróleo já se disseminou pelos custos de transporte e cadeias como produtos químicos, plásticos e fertilizantes.
O choque do petróleo ultrapassou os preços dos combustíveis e começou a se espalhar pelos custos de transporte e por cadeias produtivas como a de produtos químicos, plásticos e fertilizantes, além de afetar as expectativas de inflação de empresas e consumidores. Segundo análise do Banco Central divulgada nesta quarta-feira (24), em box do Relatório de Política Monetária, essa pressão se disseminou pela economia a partir da alta do petróleo, ampliada pelo aumento das margens de refino.
Entre janeiro e agosto, enquanto o Brent avançou US$ 23 por barril, a gasolina subiu US$ 58 e o diesel US$ 80 no mercado americano. No Brasil, a gasolina passou de R$ 6,28 para R$ 6,78 por litro, enquanto o diesel subiu de R$ 6,03 para R$ 7,45. Somados ao gás de botijão, esses combustíveis acrescentaram 0,42 ponto percentual à inflação entre março e abril, conforme o Banco Central.
Mesmo com as desonerações e subvenções adotadas pelo governo, os preços subiram. As medidas ajudaram a amortecer e, posteriormente, a moderar parte da alta, mas não impediram que o choque chegasse ao consumidor, aponta a instituição. O impacto também avançou pelas cadeias produtivas: querosene de aviação praticamente dobrou, produtos químicos, resinas e elastômeros subiram 19%, plásticos e fibras sintéticas 18%, e fertilizantes 11%.
A parcela das indústrias que aponta o custo ou a falta de matérias-primas como um dos principais problemas passou de 17,3% no fim de 2025 para 31,2% no segundo trimestre de 2026, de acordo com dados do Banco Central. O diesel demonstra por que os efeitos indiretos podem ser maiores que os percebidos inicialmente. Ele tem pouco peso direto no IPCA, mas entra nos custos do transporte, da agricultura e de várias atividades produtivas.
Segundo o Banco Central, uma alta de 10% no preço do diesel ao distribuidor teria efeito direto de apenas 0,02 ponto percentual, mas o impacto total sobre o consumo das famílias poderia chegar perto de 0,2 ponto — dez vezes mais. Parte dessa pressão ainda não chegou aos preços finais. Os repasses percorrem cadeias longas, podem levar meses, e até agora uma parcela do aumento dos custos está sendo absorvida pelas margens das empresas.
A questão central é por quanto tempo as empresas conseguirão sustentar esse movimento sem elevar seus preços. Há também um limite para a atuação do governo: desonerações e subvenções ajudaram a amortecer a alta dos combustíveis, mas têm custo fiscal e podem não ser mantidas indefinidamente.






