Banco Central deve pausar cortes de juros, alerta XP

Apesar de redução de 0,25 ponto na Selic para 14,25%, comunicado do Copom sinalizará possível interrupção do ciclo de afrouxamento monetário diante de pressões inflacionárias

Banco Central deve pausar cortes de juros, alerta XP
Pressão inflacionária e câmbio depreciad motivam cautela do Banco Central. Foto: Kamil / Unsplash — Foto: (Imagem: Kamil / Unsplash)

XP projeta que Banco Central sinalizará interrupção no ciclo de afrouxamento monetário. Selic deve cair para 14,25%, mas tom hawkish reflete piora no cenário de inflação.

O Banco Central deve manter o ciclo de redução de juros nesta terça e quarta-feira, levando a taxa Selic de 14,50% para 14,25% — um corte de 0,25 ponto percentual. Porém, segundo análise da corretora XP, o comunicado oficial sinalizará uma possível pausa nesse processo de afrouxamento monetário, refletindo deterioração no cenário inflacionário.

Inflação sinaliza risco maior à frente

As projeções atualizadas do Banco Central para a inflação devem apresentar números ainda mais elevados do que as estimativas anteriores. O índice de preços ao consumidor amplo (IPCA) projetado para o quarto trimestre de 2027 — horizonte relevante para as decisões de política monetária — deve passar de 3,5% para 3,6%. Esse movimento reflete a persistência de pressões inflacionárias não previstas semanas atrás.

Além disso, a média dos núcleos do IPCA permanece próxima a 5,5%, oscilando em torno de um patamar que corresponde ao dobro da meta central de 3% estabelecida pela autoridade monetária. Esse cenário dual — inflação oficial em trajetória ascendente e núcleos elevados — justifica o tom mais duro que se espera do comunicado.

Câmbio e demanda pressionam preços

Dois fatores estruturais amplificam as preocupações: a taxa de câmbio e a demanda doméstica acelerada. O real sofreu depreciação aproximada de 2% nas últimas semanas, com a cotação de referência atingindo a faixa de R$ 5,10. Essa trajetória negativa do câmbio reduz a capacidade de contenção de inflação que a moeda proporcionava meses atrás.

Simultaneamente, o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre registrou crescimento anualizado superior a 4,0%, indicando reaceleração expressiva da atividade econômica. Esse avanço é explicado em grande medida pelo amplo conjunto de medidas fiscais e parafiscais implementadas pelo governo a partir do final do ano anterior. Tais estímulos possuem impacto estimado em 1,5 ponto percentual sobre o crescimento anual, limitando a ociosidade da economia e, consequentemente, potencializando pressões sobre os preços.

Juros ainda elevados justificam continuidade de cortes

Apesar dos riscos inflacionários, os economistas da XP entendem que o patamar atual de juros permanece excessivamente elevado, permitindo a manutenção do ciclo de reduções. O recuo recente nos preços do petróleo — impulsionado pela sinalização de um possível acordo entre Estados Unidos e Irã sobre o fim do conflito no Oriente Médio — oferece um respiro no curto prazo e merece destaque na comunicação da autoridade monetária.

Tal dinâmica coloca o Copom em posição delicada: continuar cortando juros (respondendo aos sinais de câmbio e preços de commodities) enquanto comunica cautela extrema sobre a trajetória inflacionária futura. Essa dissonância entre ação e discurso reflete a complexidade do cenário econômico atual.

Contexto internacional e gargalos de oferta

O ambiente externo adiciona camadas de incerteza. Choques globais combinados com gargalos de oferta doméstica potencializam pressões inflacionárias estruturais. A composição específica da inflação — com núcleos persistentemente elevados — indica que não se trata meramente de fatores transitórios, mas de desajustes mais profundos entre oferta e demanda.

O comunicado do Copom nesta semana deverá refletir essa consciência. Mesmo mantendo a redução de 0,25 ponto percentual na Selic, a autoridade monetária deve sinalizar ao mercado uma redução no ritmo de cortes futuros ou, na interpretação mais pessimista, uma possível pausa. Essa mensagem de cautela será crucial para ancorar expectativas de inflação nos próximos trimestres.