Diplomacia brasileira adota tom firme contra violência, mas mantém abstenção em votação
Brasil condena repressão no Irã pela primeira vez na ONU, mas opta por se abster em votação sobre direitos humanos.
Brasil condena repressão no Irã pela primeira vez na ONU
Em 23 de janeiro de 2026, a representação brasileira no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, emitiu uma condenação inédita à repressão violenta contra manifestantes no Irã. O embaixador Tovar da Silva Nunes afirmou: “Condenamos fortemente o uso de força letal contra manifestantes pacíficos e estamos preocupados com relatos de prisões arbitrárias e de crianças como alvo”. Até então, o Itamaraty apenas acompanhava a situação com “preocupação”.
Apesar da mudança no discurso, o Brasil manteve sua tradição diplomática ao se abster na votação da resolução que exigia a extensão das investigações sobre violações de direitos humanos no país. Essa resolução foi aprovada com 25 votos favoráveis, 7 contrários e 14 abstenções. O documento foi patrocinado por países como Alemanha, Reino Unido e Islândia.
Contexto da crise no Irã
Os protestos começaram em 28 de dezembro de 2025, inicialmente motivados pela grave situação econômica do Irã, que enfrenta desvalorização acentuada da moeda e inflação de 42,2%, segundo dados de dezembro de 2025. Comerciantes e trabalhadores foram às ruas exigindo alívio econômico, mas os protestos rapidamente ganharam reivindicações políticas, pedindo reformas no sistema judiciário, maior liberdade e criticando o regime dos aiatolás.
O regime reagiu com repressão violenta. Organizações de direitos humanos, como a Agência de Notícias Ativistas de Direitos Humanos (Hrana), relataram uso de armas de fogo, gás lacrimogêneo e prisões arbitrárias. O governo iraniano chegou a cortar o acesso à internet em 9 de janeiro, embora a empresa SpaceX tenha começado a oferecer internet via satélite para contornar o bloqueio.
O papel do Irã e das sanções internacionais
Ali Khamenei, aiatolá e líder supremo desde 1989, lidera uma teocracia islâmica xiita que concentra poder absoluto em suas mãos, impondo restrições severas à população, especialmente às mulheres. A oposição está dividida, fragmentada entre grupos exilados, minorias étnicas e movimentos locais reprimidos.
O embaixador brasileiro destacou que apenas o povo iraniano tem o direito soberano de definir seu futuro, criticando sanções unilaterais que, segundo ele, agravam os problemas econômicos e sociais no Irã. Do seu lado, o representante iraniano na ONU afirmou que os patrocinadores da resolução nunca se preocuparam com os direitos dos iranianos e culpou as sanções pelo impacto negativo no país.
Ambiente geopolítico tenso
O pronunciamento brasileiro ocorre em um momento delicado, com os Estados Unidos movimentando ativos militares para regiões próximas ao Irã sob ordens do presidente Donald Trump. A tensão regional aumenta o simbolismo das manifestações e da resposta internacional.
Desafios para a diplomacia brasileira
O posicionamento do Brasil reflete uma tentativa de equilibrar a condenação da repressão e o respeito à soberania nacional, ao mesmo tempo em que critica medidas internacionais que complicam a situação econômica iraniana. Essa postura mostra uma mudança no discurso diplomático brasileiro, que até então adotava um tom mais cauteloso.
—






