Descoberta inédita no Brasil amplia conhecimento sobre impactos extraterrestres e tectitos na América do Sul

Pesquisadores identificam o campo brasileiro de geraisitos, tectitos formados por impacto cósmico há cerca de 6 milhões de anos no Brasil.
Campo brasileiro de geraisitos: evidência de impacto cósmico no Mioceno
O campo brasileiro de geraisitos, descoberto no estado de Minas Gerais, destaca-se como uma evidência singular de colisão cósmica ocorrida há cerca de 6,3 milhões de anos, no final do Mioceno. Liderada pelo geólogo Álvaro Penteado Crósta, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a equipe reuniu mais de 600 fragmentos desses vidros naturais, que agora ampliam o conhecimento dos campos de tectitos na América do Sul. Os geraisitos foram encontrados inicialmente em uma faixa de 90 quilômetros no norte mineiro, abrangendo os municípios de Taiobeiras, Curral de Dentro e São João do Paraíso, e recentemente identificados também na Bahia e Piauí, totalizando mais de 900 quilômetros de extensão.
Características geoquímicas e físicas dos geraisitos brasileiros
Os geraisitos apresentam características típicas de tectitos aerodinâmicos, com formas esféricas, elipsoidais e discoides, e tamanhos que chegam a 5 centímetros. Embora negros e opacos à primeira vista, tornam-se translúcidos sob luz intensa, exibindo tonalidade verde-acinzentada diferenciada dos moldavitos europeus. As superfícies são marcadas por pequenas cavidades, vestígios de bolhas gasosas formadas durante o rápido resfriamento na atmosfera. Geoquimicamente, esses vidros possuem alto teor de sílica (70,3% a 73,7%) e níveis elevados de sódio e potássio, além de traços de cromo e níquel, evidenciando material original heterogêneo. A presença de lechatelierita, sílica vítrea de alta temperatura, confirma a origem por impacto, assim como o baixíssimo teor de água (71 a 107 ppm), muito inferior aos vidros vulcânicos comuns.
Datação e implicações do evento de impacto
A datação isotópica por ⁴⁰Ar/³⁹Ar indica que o impacto ocorreu há aproximadamente 6,3 milhões de anos, com três grupos de idades muito próximas corroborando um único evento. Embora a cratera associada ainda não tenha sido identificada, o fenômeno está associado ao crofon do São Francisco, região geologicamente estável e antiga, sugerida pela assinatura isotópica que indica uma origem em rochas graníticas arqueanas com 3 a 3,3 bilhões de anos. A ausência da cratera não é incomum, pois metade dos seis grandes campos de tectitos conhecidos globalmente não têm crateras associadas visíveis. Técnicas aerogeofísicas poderão futuramente revelar anomalias que indiquem uma cratera enterrada ou erodida.
Importância da descoberta para o registro geológico e científico
A identificação do campo brasileiro de geraisitos preenche uma lacuna importante no registro de impactos na América do Sul, onde se conhecem poucas estruturas desse tipo. Além de ampliar o conhecimento sobre a frequência e características dos impactos cósmicos no continente, a descoberta reforça que tectitos podem ser mais comuns do que se pensava, muitas vezes confundidos com vidros vulcânicos ou outros materiais. Essa pesquisa contribui para compreender melhor os processos de formação de tectitos e a história geológica regional, destacando a relevância de estudos multidisciplinares envolvendo geologia, geoquímica e geofísica.
Pesquisas futuras e divulgação científica sobre impactos cósmicos
A equipe liderada por Álvaro Crósta trabalha atualmente em modelagens matemáticas que estimam parâmetros do impacto, como energia liberada, velocidade e volume de material fundido, enquanto continua a mapear a distribuição dos geraisitos. Para combater interpretações sensacionalistas e ampliar o entendimento público sobre riscos reais de impactos de meteoritos, o pesquisador mantém o perfil @defesaplanetaria no Instagram, que divulga informações científicas claras e responsáveis. Essa iniciativa reforça a importância de separar informações fundamentadas da especulação e contribui para a educação científica da sociedade diante de fenômenos naturais raros, porém relevantes.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: IG-Unicamp





