Cancelamento e assédio: A naturalização na academia

A cultura do cancelamento é usada para desqualificar denúncias de assédio nas universidades.

O fenômeno do cancelamento é utilizado para deslegitimar denúncias de assédio nas universidades, refletindo uma cultura de proteção aos agressores.

Contexto e Aumento das Denúncias

Nos últimos anos, as universidades públicas brasileiras têm passado por um processo de democratização, permitindo a entrada de grupos historicamente marginalizados. Contudo, esse avanço trouxe à tona um número crescente de denúncias de assédio, revelando a necessidade urgente de discutir a cultura de assédio que permeia essas instituições. As vítimas, antes silenciadas, agora se manifestam com mais força, mas enfrentam reações defensivas, incluindo a alegação de que são vítimas de uma “cultura do cancelamento”.

A Estratégia do Cancelamento

Professores acusados de assédio frequentemente se defendem alegando perseguição ideológica, desqualificando as investigações necessárias. Essa narrativa se torna uma forma de proteger a conduta inadequada, desviando a atenção dos atos cometidos e transformando a vítima em um agente de uma suposta conspiração. Essa dinâmica é observada tanto à esquerda quanto à direita do espectro político, complicando ainda mais a busca por justiça.

As Consequências da Naturalização do Assédio

A cultura do assédio nas universidades é muitas vezes normalizada, dado o ambiente hierárquico que caracteriza essas instituições. A falta de medidas efetivas para prevenir e lidar com denúncias, junto ao corporativismo, intensifica o silenciamento das vítimas. Dados do Tribunal de Contas da União revelam que cerca de 60% das universidades federais carecem de protocolos adequados para enfrentar o assédio, o que contribui para a desistência de muitos alunos que se sentem desprotegidos.

A Necessidade de Ação

É crucial diferenciar entre a crítica legítima ao silenciamento e a defesa de comportamentos abusivos. O verdadeiro enfrentamento do assédio implica em responsabilizar todos os envolvidos, independentemente de suas posições políticas ou do histórico de suas ações sociais. Assim, o debate deve ser centrado na promoção de um ambiente acadêmico seguro e respeitoso, que não permita a naturalização do assédio sob quaisquer circunstâncias.

Conclusão

A luta contra o assédio nas universidades é uma questão de justiça social e responsabilidade individual. As narrativas que tentam deslegitimar as denúncias não podem obscurecer a necessidade de um ambiente acadêmico livre de violência e discriminação. A busca por justiça deve sempre prevalecer sobre a defesa de ideologias, e a responsabilização deve ser a norma, não a exceção.