A IA não vai acabar com os gerentes, mas pode tornar obsoleto o gestor que apenas controla tarefas

Nova geração de agentes inteligentes automatiza parte da coordenação operacional e desloca o papel da liderança para decisões estratégicas, governança e desenvolvimento de pessoas A chegada dos agentes de inteligência artificial inaugura uma nova fase da transformação digital nas empresas: pela primeira vez, sistemas autônomos passam a executar parte das atividades tradicionalmente atribuídas aos gerentes. Em vez de eliminar a função, a tecnologia muda o perfil da liderança, reduzindo o peso das tarefas de coordenação operacional e ampliando a importância da tomada de decisão, da governança e da gestão de pessoas. Durante a última década, o debate sobre inteligência artificial concentrou-se na automação de tarefas operacionais. A nova geração de agentes inteligentes amplia esse impacto para atividades de coordenação que sempre fizeram parte da rotina dos gestores. Hoje, um agente de IA pode acompanhar cronogramas, cobrar atualizações, consolidar indicadores, gerar relatórios, organizar agendas, identificar desvios operacionais e sugerir prioridades com base em dados corporativos em tempo real. Esse avanço altera o centro de gravidade da liderança. Em vez de dedicar grande parte do tempo ao acompanhamento da execução, o gestor passa a concentrar sua atuação na definição de objetivos, na interpretação de contexto, na resolução de conflitos, na tomada de decisões e no desenvolvimento das equipes. O valor deixa de estar na administração da rotina e migra para competências que dependem de julgamento humano. Para Fábio Tiepolo, CEO da StaryaAI, a inteligência artificial não reduz a importância da gestão, mas redefine onde o gestor gera valor para a organização. “Os agentes de IA conseguem acompanhar processos, consolidar informações e executar rotinas com muito mais velocidade do que uma pessoa. Isso faz com que o diferencial do gestor deixe de ser o controle da operação e passe a estar na capacidade de interpretar contexto, definir prioridades, tomar decisões e desenvolver equipes. A liderança deixa de ser operacional para se tornar cada vez mais estratégica”, afirma. A mudança acompanha uma transformação mais ampla do mercado de trabalho. Segundo a atualização da Organização Internacional do Trabalho (OIT), aproximadamente um em cada quatro empregos no mundo apresenta algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. A entidade ressalta, entretanto, que a tendência predominante não é a eliminação de ocupações, mas a reorganização das atividades que compõem cada função. O Fórum Econômico Mundial chega à mesma conclusão. O Future of Jobs Report 2025 estima que as transformações impulsionadas pela inteligência artificial, pela automação, pelas mudanças demográficas e pela transição econômica poderão deslocar 92 milhões de postos de trabalho até 2030. Ao mesmo tempo, cerca de 170 milhões de novas funções deverão ser criadas, resultando em um saldo líquido positivo de aproximadamente 78 milhões de empregos. Na avaliação de Tiepolo, a principal transformação não ocorrerá na quantidade de gerentes, mas nas competências exigidas para exercer a função. “A discussão não deveria ser se a IA vai substituir os gerentes, mas quais gestores continuarão relevantes quando boa parte da coordenação operacional puder ser executada por agentes inteligentes. As empresas passarão a valorizar líderes capazes de estabelecer objetivos, supervisionar sistemas autônomos, administrar exceções e responder pelas decisões apoiadas por inteligência artificial. O futuro da gestão será medido menos pela capacidade de controlar tarefas e mais pela habilidade de integrar pessoas, tecnologia e estratégia em um mesmo processo de decisão”, esclarece. No ambiente corporativo, a Microsoft identifica o surgimento de um novo perfil profissional, denominado Agent Boss. Trata-se do líder responsável por construir, orientar, supervisionar e avaliar agentes de inteligência artificial. No Work Trend Index 2025, a empresa aponta que 28% dos gestores já consideravam contratar profissionais para liderar equipes híbridas compostas por pessoas e agentes inteligentes, enquanto 36% esperavam que a gestão desses sistemas passasse a fazer parte de suas atribuições nos cinco anos seguintes. Os dados também mostram que a transformação depende menos da tecnologia e mais da capacidade das lideranças. No Work Trend Index 2026, trabalhadores que percebiam seus gestores utilizando IA de forma estruturada relataram aumento de 17 pontos no valor percebido da tecnologia, crescimento de 22 pontos no pensamento crítico sobre seu uso e avanço de 30 pontos na confiança em sistemas agênticos. Apesar disso, apenas 26% afirmaram perceber alinhamento claro entre as lideranças em relação às estratégias de inteligência artificial adotadas pelas organizações. Outro estudo, realizado pela McKinsey, revela que apenas 21% das empresas que utilizam IA generativa redesenharam de forma significativa parte de seus fluxos de trabalho. Em mais de 80% das organizações pesquisadas, os entrevistados ainda não percebiam impacto material da tecnologia sobre os resultados do negócio. Os números sugerem que muitas empresas continuam apenas adicionando novas ferramentas aos processos existentes, sem revisar a forma como o trabalho é organizado. Para Fernando Morad, COO da StaryaAI, a principal mudança ocorre na natureza da liderança, e não necessariamente na existência da função gerencial. “Os agentes inteligentes assumem parte significativa da coordenação operacional, mas isso não reduz a importância do gestor. Pelo contrário: aumenta a necessidade de líderes capazes de validar decisões, interpretar cenários, administrar exceções e conectar tecnologia aos objetivos do negócio. Quem continuar apenas acompanhando tarefas perderá relevância; quem souber transformar informação em decisão terá um papel ainda mais estratégico. A tendência também modifica a estrutura das organizações. Em vez de coordenar exclusivamente pessoas, os gestores passam a liderar equipes híbridas formadas por profissionais e agentes especializados em pesquisa, análise de dados, atendimento, documentação, monitoramento e execução de processos. O papel do gerente deixa de ser o de controlador da operação para assumir funções de orquestração, supervisão, validação e prestação de contas. Nesse contexto, a governança ganha papel central. À medida que agentes de IA passam a executar processos e recomendar decisões, cresce também a necessidade de estabelecer critérios claros de supervisão, rastreabilidade e responsabilização. “À medida que os agentes recebem mais autonomia, a governança deixa de ser um diferencial e passa a ser uma exigência. As empresas precisarão saber como cada decisão foi tomada, quais dados foram utilizados e quem responde pelos resultados. Autonomia sem rastreabilidade compromete a confiança e aumenta os riscos operacionais e regulatórios”, acrescenta Fernando Morad.

IA por voz desponta como próxima fronteira da saúde digital, mas setor ainda busca modelo de adoção no Brasil

Após a expansão dos chatbots e do atendimento via WhatsApp, agentes de voz baseados em inteligência artificial passam a integrar a estratégia de hospitais, clínicas e operadoras, mas desafios de integração, segurança e confiança ainda limitam a consolidação da tecnologia A inteligência artificial por voz começa a ganhar espaço como a próxima etapa da transformação digital na saúde brasileira. Depois da rápida adoção de chatbots baseados em texto e da ampliação do atendimento digital por aplicativos de mensagens, hospitais, clínicas e operadoras passam a avaliar agentes conversacionais capazes de compreender linguagem natural, acessar sistemas internos e resolver demandas dos pacientes por telefone. Embora o potencial seja elevado, especialistas apontam que o mercado nacional ainda busca um modelo que una eficiência operacional, segurança da informação, integração tecnológica e conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Segundo a Pesquisa TIC Saúde 2025, conduzida pelo Cetic.br/NIC.br e divulgada pelo CGI.br, 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros já utilizam inteligência artificial, considerando instituições públicas e privadas. Entre aqueles que adotaram a tecnologia, 76% utilizam modelos generativos de linguagem, como ChatGPT e Gemini, evidenciando que a principal porta de entrada da IA ocorreu por meio dos assistentes baseados em texto. Apesar desse avanço, a aplicação da tecnologia ainda está concentrada em atividades administrativas e operacionais, enquanto os agentes conversacionais por voz representam a nova fronteira da saúde digital. Atualmente, 45% das instituições utilizam IA para organizar processos clínicos e administrativos, 36% aplicam a tecnologia em segurança digital, 32% na eficiência dos tratamentos, 31% em logística e 26% em apoio ao diagnóstico. Esses números demonstram que a adoção ainda está distante de aplicações amplamente voltadas ao relacionamento direto entre pacientes e serviços de saúde. A evolução da experiência digital do paciente também reforça esse cenário.  A mesma pesquisa mostra que 35% dos estabelecimentos já oferecem interação online entre pacientes e equipes de saúde, percentual que praticamente dobrou em relação aos 16% registrados em 2023. Além disso, 39% disponibilizam resultados de exames pela internet, 34% permitem agendamento online de consultas e 32% oferecem agendamento digital de exames. Esse processo de digitalização cria um ambiente favorável para que interfaces conversacionais por voz se tornem uma evolução natural da jornada do paciente. Para Fábio Tiepolo, CEO da StaryaAI, a retomada da voz como canal estratégico ocorre porque o telefone permanece sendo um dos principais meios de contato entre pacientes e instituições de saúde, especialmente em situações que exigem rapidez e orientação. “A voz volta ao centro da estratégia porque deixa de ser apenas um canal de entrada para se tornar um canal de resolução. Com inteligência artificial, o agente consegue autenticar o paciente, consultar sistemas, executar tarefas e preservar todo o contexto quando o atendimento humano precisa assumir a conversa. O objetivo não é substituir pessoas, mas reduzir o esforço do paciente e tornar a jornada mais eficiente”, afirma.  Apesar do avanço tecnológico, consolidar agentes de voz no setor da saúde exige desafios muito maiores do que aqueles enfrentados em outros segmentos da economia. Além da compreensão da linguagem natural, essas soluções precisam operar sobre ambientes complexos, integrar sistemas legados, acessar informações clínicas de forma segura, respeitar protocolos assistenciais e identificar corretamente situações que exigem intervenção humana. Segundo Vinícius Reis, CTO da StaryaAI, o diferencial não está apenas na capacidade de conversar, mas na capacidade de executar processos com segurança. “Na saúde, eficiência não significa apenas responder rapidamente. O agente precisa compreender o contexto, acessar dados corretos, respeitar regras de negócio, saber exatamente quais atividades pode executar e reconhecer quando deve interromper a automação para transferir o atendimento a um profissional. A combinação entre integração, governança, rastreabilidade e inteligência operacional é o que torna esse mercado especialmente desafiador”, explica. Os desafios para ampliar o uso da inteligência artificial também aparecem nos indicadores nacionais. De acordo com a Pesquisa TIC Saúde 2025, 63% das instituições apontam os custos elevados como principal obstáculo para adoção, enquanto 56% citam a baixa priorização institucional e 51% mencionam limitações relacionadas à disponibilidade de dados e à capacitação técnica das equipes. Esses fatores ajudam a explicar por que a tecnologia ainda avança de forma gradual, apesar do crescente interesse do mercado. Ao mesmo tempo, experiências práticas demonstram que os agentes de voz já conseguem gerar ganhos operacionais em processos estruturados. Em operações voltadas ao atendimento de beneficiários, essas soluções já realizam autenticação de usuários, emissão de boletos, consulta ao status de autorizações, identificação do motivo do contato e encaminhamento inteligente para filas específicas, preservando todas as informações coletadas durante a interação. Quando a demanda ultrapassa seu escopo, a transferência para um atendente ocorre com histórico completo da conversa, reduzindo retrabalho e evitando que o paciente precise repetir informações. Para os especialistas, a próxima disputa da saúde digital não será vencida apenas pela tecnologia mais sofisticada, mas pela capacidade das organizações de integrar inteligência artificial aos processos assistenciais de forma segura, escalável e mensurável. Nos próximos anos, a expectativa é que voz, aplicativos, mensagens e demais canais digitais funcionem de maneira integrada, permitindo que o paciente transite entre diferentes plataformas sem perder o contexto do atendimento.

GoParts vence o Pitch Vale do Pinhão 2026 e reforça liderança em inovação no mercado brasileiro de autopeças

Startup curitibana conquista o primeiro lugar na principal competição de inovação do Paraná com plataforma que conecta consumidores a concessionárias de todo o Brasil A GoParts, maior marketplace de autopeças originais do Brasil, conquistou o primeiro lugar na grande final do Pitch Vale do Pinhão 2026, realizada ontem (5), em Curitiba. A startup foi reconhecida pela solução tecnológica que transforma a compra de autopeças originais no Brasil, utilizando inteligência de compatibilidade veicular para conectar consumidores diretamente ao estoque de mais de 500 concessionárias. Promovida pela Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, a celebração reuniu empresas de diferentes estados brasileiros para apresentar soluções inovadoras a investidores, especialistas e representantes do ecossistema nacional de inovação. Entre dezenas de participantes, a GoParts destacou-se pelo potencial de mercado, pelo modelo de negócio escalável e pelo impacto na digitalização do setor automotivo. Fundada há seis anos em Curitiba pelos empresários Vinícius Grein e Lincon Ferraz, a GoParts nasceu para solucionar o problema de quem busca peças corretas para veículos sem “abrir mão” de segurança e garantia. Como quase todo negócio de sucesso, a startup foi pensada a partir de um problema bem real. Lincon Ferraz não conseguia encontrar, com confiança, a peça certa para o próprio carro. “A partir da história do Lincon e de muita pesquisa, passamos a entender as dores do mercado e como poderíamos resolver esse problema para quem compra e para quem vende”, conta Grein, ressaltando que o problema de seu sócio era também o problema de milhares de brasileiros. Hoje, poucos anos depois, o marketplace da empresa (goparts.com.br) reúne mais de R$ 2 bilhões em produtos disponíveis para venda e conecta consumidores ao estoque de mais de 500 concessionárias autorizadas em todo o país, trabalhando com marcas como Volkswagen, Fiat, Toyota, Honda, Chevrolet, Ford, Jeep, Audi, BMW, Hyundai, Nissan, Mercedes-Benz, Volvo, Citroën, Mitsubishi e Kia. O principal diferencial da startup é sua tecnologia proprietária de compatibilidade. “A partir da placa do veículo, o sistema identifica automaticamente versão, motorização, ano e demais características técnicas, exibindo apenas peças compatíveis com aquele automóvel. O processo reduz erros de compra, aumenta a segurança para consumidores e oficinas mecânicas e fortalece a digitalização do mercado de autopeças originais”, destaca Ferraz. Outro fator determinante para o sucesso do projeto é a comercialização exclusiva de peças novas e genuínas, fornecidas diretamente por concessionárias autorizadas, diferente de marketplaces genéricos, onde a origem da peça nem sempre é clara. “Todas as compras são realizadas com emissão de nota fiscal e garantia nacional do fabricante. Além da entrega em qualquer cidade brasileira, a plataforma também oferece a opção de retirada na concessionária parceira mais próxima, ampliando a conveniência para consumidores e profissionais do setor”, explica Grein. Além de toda a comodidade para quem compra, a GoParts facilita muito a compra para quem vende, ampliando o alcance territorial e ampliando mercados para seus parceiros. “Oferecemos uma ferramenta completa e muito funcional, reduzindo a complexidade para quem vende. Automatizamos processos de estoque, precificação, gestão e regras do comércio eletrônico. Na prática, o concessionário precisa apenas despachar a peça”, destaca Grein. Mesmo entregando suas peças em todos os cantos do Brasil, a Go Parts também pensou nos consumidores que têm pressa ou que preferem ver a peça antes de comprar. “O site permite verificar a disponibilidade e retirar diretamente no balcão da concessionária mais próxima, sem custo ou prazo de frete. É a lógica do marketplace combinada com a rede física de centenas de concessionárias parceiras em todo o Brasil”, complementa o empresário. Pitch Vale do Pinhão 2026 Para a GoParts, o reconhecimento obtido no Pitch Vale do Pinhão 2026 fortalece a estratégia de expansão nacional da plataforma e amplia sua visibilidade junto ao mercado de inovação, investidores e parceiros estratégicos. Como vencedora da competição, a startup também passa a ter acesso às premiações previstas pela organização, incluindo mentorias especializadas e a possibilidade de investimento, conforme critérios estabelecidos pela promotora da iniciativa. “A conquista do Pitch Vale do Pinhão representa um importante reconhecimento da capacidade de inovação da Go Parts e reforça nossa missão de tornar a compra de autopeças mais segura, simples e confiável para consumidores e concessionárias de todo o Brasil”, celebra Grein. A vitória também evidencia o crescimento do ecossistema de inovação de Curitiba e reforça o protagonismo de startups capazes de desenvolver soluções para desafios reais da economia brasileira. “Desenvolvemos uma plataforma que reúne catálogo, compatibilidade, pagamentos, logística e tecnologia em um único ecossistema. Quanto mais simples for vender e comprar peças, mais eficiente será toda a cadeia automotiva. Ao simplificarmos a jornada de compra de autopeças originais por meio da tecnologia, a GoParts contribui para aumentar a eficiência da cadeia automotiva, reduzir erros de compatibilidade e ampliar a confiança nas compras online do segmento”, completa Ferraz.

Tokenização deixa de ser tendência e passa a integrar a estratégia financeira das empresas

Tecnologia baseada em blockchain amplia eficiência operacional, democratiza investimentos e cria novas alternativas para captação de recursos e gestão patrimonial A tokenização de ativos vem consolidando sua posição como estratégia financeira adotada por empresas de diferentes setores para modernizar operações, captar recursos e otimizar a gestão patrimonial. Impulsionada pela evolução da tecnologia blockchain e pela adoção crescente de ativos digitais do mundo real (Real World Assets – RWAs), a prática amplia o acesso a investimentos, reduz custos operacionais e automatiza processos antes dependentes de múltiplos intermediários. Muito além das criptomoedas, a tokenização consiste na representação digital de um ativo, direito ou informação por meio de um token registrado em blockchain ou em outra infraestrutura de registro distribuído (DLT). Esse token funciona como um certificado digital que representa, de forma segura e rastreável, os direitos econômicos e jurídicos vinculados ao ativo original. Imóveis, obras de arte, créditos de carbono, títulos financeiros, commodities, royalties, patentes e recebíveis já figuram entre os ativos que podem ser tokenizados. “A tokenização não deve mais ser vista apenas como uma inovação ligada ao universo das criptomoedas. Ela representa uma nova infraestrutura para registrar, negociar e administrar ativos com mais eficiência, transparência e segurança. As empresas que compreendem esse movimento passam a contar com ferramentas capazes de reduzir custos operacionais, ampliar possibilidades de financiamento e melhorar significativamente sua governança”, afirma Cleverson Pereira, head Educacional da OnilX. Na prática, o processo envolve a escolha do ativo, a estruturação jurídica que garante os direitos representados, a emissão dos tokens por meio de contratos inteligentes (smart contracts), o registro permanente em blockchain e, posteriormente, sua negociação conforme as regras estabelecidas. Essa estrutura permite fracionar ativos de elevado valor, ampliar sua liquidez e tornar investimentos antes restritos a grandes investidores acessíveis a um público mais amplo. Além de ampliar possibilidades de investimento, a tokenização vem transformando processos corporativos. Contratos inteligentes automatizam pagamentos de dividendos, distribuição de receitas, atualização de registros patrimoniais e cumprimento de regras regulatórias, reduzindo custos administrativos, tempo de liquidação e riscos operacionais. A tecnologia também fortalece a rastreabilidade de operações, beneficiando cadeias logísticas, gestão documental, certificações, setor de saúde e controle de ativos corporativos. “A tokenização está mudando a forma como as empresas administram seus processos internos. Atividades que antes exigiam diversas validações e intermediários podem ser executadas automaticamente, com mais segurança, rastreabilidade e agilidade. É uma evolução que impacta diretamente a competitividade dos negócios”, avalia o especialista. Na área de captação de recursos, a tokenização abre novas alternativas para empresas, incorporadoras, produtores rurais e projetos de infraestrutura. Empreendimentos imobiliários podem ser divididos em milhares de frações digitais, permitindo investimentos de menor valor e ampliando a base de investidores. No agronegócio, ativos como recebíveis, safras futuras, commodities e créditos de carbono podem ser utilizados para antecipação de recursos. Startups também encontram na tokenização uma nova possibilidade de financiamento por meio da representação digital de participação societária, royalties ou contratos futuros. Outro avanço relevante está na gestão patrimonial. Empresas e fundos passam a acompanhar ativos em tempo real, com histórico completo de propriedade e movimentações registrado em blockchain. A tecnologia também favorece o uso de ativos tokenizados como garantias em operações financeiras, reduzindo a necessidade de liquidação antecipada de patrimônios e aumentando a eficiência na administração de garantias. A adoção institucional demonstra que a tecnologia deixou de ser um conceito experimental. Organizações como BlackRock, Franklin Templeton e JPMorgan já operam produtos financeiros tokenizados em escala internacional. No Brasil, iniciativas envolvendo ativos financeiros, recebíveis e debêntures também vêm ganhando espaço, reforçando a tendência de digitalização da economia e da infraestrutura financeira. Para Cleverson, o momento representa uma mudança estrutural na forma como empresas administram patrimônio e acessam capital. Segundo o especialista, o principal impacto da tecnologia está na integração entre mercados tradicionais e a infraestrutura digital. “A tendência é que imóveis, ativos financeiros, propriedade intelectual, créditos de carbono e diversos outros ativos passem a circular de maneira cada vez mais eficiente em ambientes digitais, mantendo segurança jurídica e maior transparência para todos os participantes.” Apesar do avanço, o especialista aponta que a consolidação da tokenização ainda depende da evolução regulatória, da interoperabilidade entre diferentes redes blockchain, da padronização tecnológica e do fortalecimento da liquidez dos mercados secundários. Ainda assim, o consenso do setor é de que a tecnologia deve desempenhar papel estratégico na digitalização da economia nos próximos anos, tornando processos financeiros mais rápidos, auditáveis e eficientes. “O mercado já entende os ganhos de eficiência proporcionados pela tokenização. Agora, o desafio está em ampliar a interoperabilidade entre plataformas, fortalecer a segurança jurídica e desenvolver mercados secundários mais líquidos. Esses fatores serão determinantes para que a tecnologia alcance todo o seu potencial na economia digital”, conclui.