Reconfiguração das clivagens políticas no cenário chileno.

A eleição de 2025 marca um novo eixo político no Chile, superando a clivagem ditadura-democracia.
A recente eleição no Chile, ocorrida em 2025, sinaliza uma mudança profunda na configuração política do país. A vitória do conservador José Antonio Kast não representa apenas uma alternância de poder, mas um realinhamento nas clivagens que historicamente estruturaram a política chilena. Essa nova configuração desafia o antigo eixo ditadura-democracia, que por décadas foi o principal organizador do debate político.
O novo eixo político
Durante a campanha, tanto Kast quanto a candidata governista Jeannette Jara destacaram a crise social iniciada em 2019 como um ponto central em suas abordagens, em vez de recorrer ao passado autoritário que marcava as eleições anteriores. Essa mudança é indicativa de um deslocamento significativo nas prioridades dos eleitores, que agora se veem frente a um novo dilema: restauração ou refundação. O primeiro grupo vê em 2019 uma ruptura da ordem, enquanto o segundo considera a explosão social como uma manifestação legítima de insatisfação com um modelo que se esgotou.
A influência do plebiscito de 2022
Os resultados da eleição de 2025 refletem intimamente as divisões observadas no plebiscito de 2022, que rejeitou uma proposta de nova constituição. Municípios que votaram contra a nova constituição demonstraram comportamento semelhante nas urnas, reforçando a ideia de que a antiga clivagem já não exerce a mesma influência. O mapa eleitoral sugere que as questões atuais são mais complexas e multifacetadas, proporcionando um espaço para novas narrativas e interpretações.
A mudança nas elites políticas
Esse realinhamento também se manifesta nas elites políticas. Figuras que antes eram associadas ao “Não” de 1988, que se opunha à ditadura, agora apoiam candidatos do polo restaurador. Isso indica um enfraquecimento do eixo histórico entre ditadura e democracia, dando lugar a uma nova clivagem que ainda está em formação, mas que já se mostra suficientemente forte para influenciar as estratégias políticas futuras.
Conclusão
A eleição de 2025 não só redefine o campo político chileno, mas também exige uma nova interpretação das tensões políticas atuais. O debate agora se concentra em como interpretar a crise de 2019 e suas consequências, afastando-se da visão simplista que ainda tenta entender a realidade política sob a ótica de conflitos passados. O Chile está, portanto, em um processo de renovação de sua identidade política, onde novas vozes e demandas começam a emergir, moldando o futuro do país.
Fonte: www1.folha.uol.com.br





