Promotor destaca a necessidade de coordenação entre forças de segurança para enfrentar facções criminosas
Promotor Lincoln Gakiya alerta sobre a falta de integração entre polícias no combate ao PCC e narcotráfico.
A falta de integração das polícias é um dos maiores obstáculos no enfrentamento do narcotráfico no Brasil, especialmente em relação ao Primeiro Comando da Capital (PCC), conforme declarou Lincoln Gakiya, promotor de justiça em São Paulo, durante uma sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Crime Organizado.
Gakiya destacou que em seus 34 anos de atuação, nunca viu um esforço efetivo para que as diferentes forças de segurança trabalhem de forma coordenada e integrada. “O que eu vejo hoje são, infelizmente, disputas institucionais entre as polícias e o Ministério Público”, afirmou o promotor.
Durante sua fala, o promotor mencionou o recente caso no Rio de Janeiro, onde 122 pessoas foram mortas, incluindo cinco policiais, como um exemplo da urgência em se consolidar uma atuação conjunta.
Gakiya, que já recebeu ameaças de morte do PCC, advertiu que o Brasil está a caminho de se tornar um narcoestado se a situação não for revertida. Ele apontou que as facções criminosas já estão infiltradas na economia formal, utilizando ferramentas como fintechs e criptomoedas para lavagem de dinheiro.
A crítica à legislação atual
O promotor criticou o projeto de lei Antifacção, que foi aprovado na Câmara dos Deputados, alegando que ele não distingue adequadamente as lideranças do crime organizado dos seus subordinados. “Talvez, senadores, não haja um problema crucial de falta de legislação no país. A legislação precisa ser aperfeiçoada, mas o mais grave é a falta de coordenação e cooperação entre os órgãos do Estado”, afirmou.
A polarização política, segundo Gakiya, tem agravado ainda mais a situação, dificultando a colaboração entre as diferentes esferas de governo. Ele exemplificou que operações eficazes, como a Carbono Oculto, que desarticulou esquemas de lavagem de dinheiro do PCC, ocorreram mais devido à iniciativa de servidores do estado do que a uma colaboração institucional estruturada.
A proposta de uma Autoridade Nacional
Para sanar os problemas de integração, Gakiya propôs a criação de uma Autoridade Nacional para o combate ao crime organizado, que reuniría representantes de todas as polícias e órgãos do governo. “Essa seria a maneira de superar essas disputas institucionais e de promover uma colaboração efetiva”, sugeriu.
O governo federal já apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa aprofundar a integração das forças de segurança, mas enfrenta resistência na Câmara.
Gakiya enfatizou que é vital que o Brasil não se torne um narcoestado, apontando que, para isso, as instituições precisam estar preparadas e atuantes. Ele advertiu que a falta de regulação e fiscalização, especialmente no setor de fintechs, contribui para a lavagem de dinheiro.
O crescimento do PCC
O promotor lembrou que o PCC tem presença em todas as unidades da federação e em pelo menos 28 países, com uma receita que saltou de R$ 10 milhões anuais em 2010 para cerca de R$ 10 bilhões atualmente. Esse crescimento assustador se reflete na infiltração do crime organizado em contratos públicos e na influência sobre a política local, onde campanhas eleitorais são frequentemente financiadas por grupos criminosos.
Gakiya também mencionou como o crime se infiltrou em empresas de transporte em São Paulo, que estavam ligadas ao PCC, levando a um faturamento significativo a partir de contratos com o poder público.
No final, Gakiya reiterou a necessidade urgente de uma estratégia integrada e coordenada para combater o crime organizado e evitar que o Brasil avance ainda mais em direção ao que ele chamou de narcoestado. A falta de ação conjunta e a polarização política, segundo ele, têm sido os principais obstáculos para essa integração.
O depoimento de Lincoln Gakiya na CPI refletiu a urgência de uma resposta coordenada no combate ao crime organizado, sinalizando que a situação atual é insustentável e requer ação imediata.





