Avaliação do MEC destaca que estudantes de universidades públicas superam os de instituições privadas no Enamed

Estudo do MEC revela que desempenho dos alunos de medicina das universidades privadas fica atrás dos públicos, apesar do melhor perfil socioeconômico.
Panorama do desempenho dos alunos de medicina privados no Enamed 2026
O desempenho dos alunos de medicina das universidades privadas no Exame Nacional das Escolas Médicas (Enamed) de 2026, divulgado em janeiro, revela que esses estudantes ficaram atrás dos colegas das instituições públicas em 85 das 90 questões válidas da prova, o que corresponde a 94% do exame. Esta análise, baseada em microdados do Ministério da Educação (MEC), acende um alerta sobre a qualidade do ensino superior na área médica, especialmente na rede privada. O professor Mario Scheffer, da USP, coordenador do estudo Demografia Médica no Brasil, destaca que a variável da escola é um fator determinante no desempenho dos alunos, afastando a ideia de que apenas o perfil socioeconômico dos estudantes seja responsável pelos resultados.
Perfil socioeconômico dos estudantes privados e públicos
Análises detalhadas mostram que mais de 35% dos alunos dos cursos privados de medicina possuem renda familiar superior a seis salários mínimos mensais, enquanto nas públicas este percentual é de 19%. Quanto à escolaridade, 36% dos estudantes privados têm mães com ensino superior, contra 31% nas públicas. Na questão racial, há maior diversidade entre os alunos das instituições públicas, com 37% autodeclarados pretos ou pardos, frente a 27% nas privadas. Apesar dessas vantagens socioeconômicas, os alunos privados apresentam desempenho inferior, indicando que o fator institucional e qualidade do ensino têm impacto mais direto. Os cursos privados com pior avaliação são, em geral, mais novos, localizados em cidades menores e com menor concorrência para ingresso.
Impacto da qualidade dos cursos na formação médica e no mercado
Os resultados do Enamed também apontam para um abismo no conhecimento em questões médicas específicas. Por exemplo, uma questão sobre insensibilidade androgênica teve 50,4% de acertos entre alunos públicos e apenas 24,4% entre os privados. Outro exemplo refere-se ao manejo do luto na atenção básica, com 72,6% de acertos nos públicos e 55,1% nos privados. Esses dados indicam fragilidades que podem impactar diretamente a formação médica e a qualidade do atendimento à população. O MEC, atento a esse cenário, suspendeu a abertura de novos cursos privados de medicina, buscando reforçar a supervisão e garantir maior qualidade na formação dos futuros profissionais.
Análise institucional e fatores que influenciam o desempenho acadêmico
Especialistas indicam que cursos com menor percentual de docentes com doutorado e maior número de alunos por professor tendem a ter desempenho inferior. Instituições mais antigas, com maior concorrência para ingresso, geralmente entregam melhores resultados. O economista Rodrigo Capelato, do Semesp, ressalta que a maior concentração de estudantes privados e as diferenças na seleção dos alunos entre as redes pública e privada também influenciam os resultados, embora a prova avalie apenas uma dimensão da qualidade do ensino. A expansão rápida de cursos privados após a Lei do Mais Médicos, especialmente em cidades menores, contribuiu para a diversificação dos resultados e desafios na qualidade.
Desafios e perspectivas para o ensino superior em medicina no Brasil
A investigação jornalística aponta para a necessidade de políticas mais rigorosas de supervisão e avaliação das graduações médicas, especialmente nas instituições privadas. A disparidade no desempenho, mesmo com melhor perfil socioeconômico, reforça a importância de se investir na qualidade dos cursos para garantir a formação adequada dos profissionais. O debate sobre qualidade, acesso e equidade no ensino superior ganha urgência, considerando o impacto direto na saúde pública e na sociedade. A suspensão do edital para novos cursos privados pelo MEC é um passo inicial para enfrentar esses desafios e promover avanços significativos na educação médica nacional.
Fonte: bemparana.com.br





