Análise da representatividade negra em cargos de liderança no Brasil

Estudo revela que, apesar do aumento de líderes negros, a desigualdade persiste nas altas cúpulas do poder no Brasil.
O Brasil vive um paradoxo em sua estrutura de poder. A presença de profissionais negros em cargos de liderança nunca foi tão alta, mas as posições estratégicas permanecem predominantemente brancas. O decreto 11.443/2023, que estabelece um mínimo de 30% de pessoas negras em cargos comissionados na administração pública federal, trouxe avanços, mas a alta cúpula ainda resiste à mudança.
A crescente presença negra nas lideranças
O estudo realizado pelo Movimento Pessoas à Frente e pelo Núcleo de Estudos Raciais do Insper aponta que, em setembro de 2025, 38,6% dos cargos de liderança na administração federal eram ocupados por pessoas negras. Nos níveis de base e média liderança, essa porcentagem sobe para 40,03%, com destaque para ministérios sociais, como o de Igualdade Racial, onde a presença negra chega a 84,62%.
Entretanto, essa inclusão não se reflete nas posições mais altas. No topo da hierarquia, a representatividade negra cai para 30,85%. Além disso, 40,4% dos órgãos ainda não atingem a meta estabelecida pelo decreto, com as maiores assimetrias concentradas em ministérios fundamentais, como os ligados à política econômica e ao serviço exterior.
O impacto da hierarquia racial
As posições de liderança em um governo são cruciais, pois são responsáveis pela gestão de recursos e pela entrega de resultados à sociedade. O contraste entre os diferentes níveis hierárquicos revela que, enquanto a porta de entrada e os níveis intermediários se diversificaram, a resistência à mudança persiste nas esferas mais altas. Essa resistência é alimentada por uma longa história de desigualdade racial nas carreiras tradicionais, como diplomacia e alta gestão econômica.
Iniciativas afirmativas, como o pacote de ações do Itamaraty, buscam corrigir essa defasagem, mas seus resultados são lentos e graduais. Mesmo com um crescimento significativo na base, a transição para o topo não é automática.
Caminhos para a equidade
Embora o decreto 11.443/2023 tenha acertado ao segmentar metas para diferentes níveis de liderança, é necessário implementar mecanismos que garantam avanços consistentes em cada órgão. Para que o Estado brasileiro reflita sua população, o decreto deve ser visto como um ponto de partida. É essencial estabelecer metas intermediárias, planos de sucessão racial e monitoramento público periódico.
A diversidade pode ter avançado, mas ainda não governa o Estado brasileiro. O topo, onde se desenha o futuro do país, ainda muda a passos lentos. A próxima fase das políticas públicas deve enfrentar essa barreira, assegurando que as portas abertas levem realmente a lugares de decisão.
Por fim, o editor Michael França convida os leitores a refletirem sobre a importância da representatividade, sugerindo que cada um escolha uma música que simbolize essa luta. A música “Refazenda”, de Gilberto Gil, foi a escolhida por Jessika Moreira, Michael França e Daniel Duque, como um tributo à diversidade e à construção de um futuro mais igualitário.
Fonte: www1.folha.uol.com.br




