Ditadura militar impulsionou o ensino privado com recursos públicos

Investigação revela como a ditadura militar financiou e favoreceu o Colégio Anglo-Americano com verba pública em Foz do Iguaçu

Ditadura militar impulsionou o ensino privado com recursos públicos
Prédio da escola Politécnica entregue ao Colégio Anglo-Americano em Foz do Iguaçu. Foto: Eletrobrás Furnas/Divulgação

Ditadura militar financiou o ensino privado ao direcionar verba pública para o Colégio Anglo-Americano em Foz do Iguaçu, criando um império educacional.

Como a ditadura militar ensino privado moldou a educação em Foz do Iguaçu

A ditadura militar ensino privado transformou a educação em Foz do Iguaçu a partir de 1976, quando a Escola Politécnica, construída com verba pública para suprir a demanda escolar da cidade, foi entregue para o Colégio Anglo-Americano. O contrato firmado com a Itaipu Binacional, representada pelo general José Costa Cavalcanti, e o consórcio Unicon, favoreceu o crescimento de uma rede privada financiada majoritariamente por recursos federais. O professor aposentado José Kuiava relembra o constrangimento e a ordem direta para entregar as chaves do prédio ao empresário Ney Suassuna, que assumiu o controle da instituição com respaldo político do Ministério do Planejamento.

Contrato e financiamento: privilégios e falta de licitação na rede privada

O acordo entre Anglo-Americano, Itaipu e Unicon estabeleceu mensalidades custeadas pela usina que variavam entre CR$ 300 e CR$ 500, valores muito acima da rede pública para crianças de baixa renda. Não houve processo licitatório público, conforme constatou a pesquisadora Denise Sbardelotto, que avaliou o contrato como desvantajoso para o setor público devido ao investimento massivo na escola privada e à infraestrutura entregue para administração do Anglo-Americano, que se tornou uma “galinha dos ovos de ouro”. O caso evidencia a escolha política arbitrária que abriu portas para a expansão da rede privada financiada por verbas públicas.

Desigualdades educacionais estruturadas na divisão social da Vila A, B e C

A estrutura educacional criada pela iniciativa privada reproduziu a segregação social. A Vila A e B, habitadas por funcionários com melhores salários, tinham escola equipada com biblioteca, laboratórios e áreas culturais. Já a Vila C, destinada a trabalhadores braçais, contava com instalações precárias e ensino de primeiro grau, sem acesso fácil ao ensino médio, configurando uma educação desigual e segmentada. O projeto pedagógico obrigatório da ditadura reforçou essa divisão, destinando os filhos dos trabalhadores subalternos para cursos profissionalizantes e limitando suas oportunidades acadêmicas. Essa realidade marcou profundamente a experiência dos estudantes, evidenciando a violência simbólica e a desigualdade dentro do próprio colégio.

Impactos no município e na rede pública diante da explosão populacional

Foz do Iguaçu passou de 34 mil habitantes em 1970 para 136 mil em 1980, após o início das obras de Itaipu. A desapropriação de grandes áreas e o deslocamento de milhares de pessoas afetaram a estrutura educacional local, com cerca de 95 escolas fechadas e insuficientes investimentos públicos para a construção de novas unidades. A rede pública precisou adaptar-se com a implantação de turnos durante o horário de almoço para atender a demanda. Apesar de alguma indenização e reformas pontuais, os recursos destinados à rede pública foram ínfimos em comparação ao volume investido no Colégio Anglo-Americano, agravando as desigualdades educacionais na região.

Crescimento e legado do Colégio Anglo-Americano no Brasil pós-ditadura

Após o fim das obras de Itaipu, em 1988, o Anglo-Americano começou a receber alunos além dos funcionários da usina, expandindo-se pelo país com dezenas de milhares de estudantes e faculdades em várias regiões. Ney Suassuna, paraibano e ex-assessor do Ministério do Planejamento, capitalizou a parceria política para ampliar o império educacional. Apesar de hoje não pertencer mais à Suassuna, a instituição permanece como legado da política educacional da ditadura, marcada pela transferência de recursos públicos para o ensino privado e pela segregação educacional que refletia a estrutura social da época. O episódio exemplifica como decisões autoritárias influenciaram profundamente o sistema educacional brasileiro.