Efeitos das microdoses de cannabis em pacientes idosos com Alzheimer

Pesquisa revela promissora abordagem terapêutica com THC e CBD para demências

Estudo investiga microdoses de cannabis em idosos com Alzheimer, revelando possíveis benefícios terapêuticos.

Estudo brasileiro investiga microdoses de cannabis em idosos

Pesquisadores brasileiros examinaram os efeitos das microdoses de extrato de cannabis em pacientes idosos diagnosticados com Alzheimer leve. À medida que a população envelhece, o número de pessoas afetadas por demências, como o Alzheimer, continua a aumentar. Diante da falta de tratamentos curativos, novas abordagens terapêuticas, como os canabinoides, ganham destaque.

O estudo, publicado no Journal of Alzheimer’s Disease, foi liderado pelo professor Francisney Nascimento e sua equipe na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila). A pesquisa focou no uso diário de um extrato de cannabis que combina THC e CBD em concentrações mínimas, conhecidas como microdoses. Essas doses são subpsicoativas, ou seja, não provocam os efeitos psicoativos típicos do uso recreativo da cannabis, o que pode ser uma preocupação para muitos pacientes e médicos.

Efeitos observados nas microdoses

A escolha por microdoses não foi aleatória. Em estudos anteriores, como o de 2017, foi demonstrado que doses baixas de THC podiam restaurar funções cognitivas em camundongos idosos, revertendo padrões de expressão gênica e aumentando a densidade sináptica. Além disso, o sistema endocanabinoide, essencial para a homeostase e plasticidade neural, tende a declinar com a idade, o que reforça a importância de pesquisas nessa área.

O ensaio clínico foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, utilizando a escala ADAS-Cog para avaliar a função cognitiva dos participantes. Após 24 semanas de tratamento, o grupo que recebeu o extrato de cannabis com THC apresentou estabilização dos escores, enquanto o grupo placebo demonstrou piora. Embora o impacto tenha sido modesto, a diferença foi estatisticamente significativa, sugerindo que microdoses podem ter um papel preventivo no declínio cognitivo.

Limitações e futuro da pesquisa

Apesar das promissoras descobertas, o estudo enfrenta limitações, como o pequeno tamanho da amostra e a restrição dos efeitos a uma única dimensão da escala de cognição. Entretanto, esta pesquisa representa um marco significativo, sendo o primeiro ensaio clínico a testar microdoses em humanos com Alzheimer. Para aprofundar a investigação, novos estudos com uma amostra maior e um seguimento prolongado são essenciais. Isso ajudará a responder se a cannabis pode, de fato, prevenir o Alzheimer.

Desafios culturais e aceitação

Um dos principais obstáculos para a aceitação da cannabis como ferramenta terapêutica para o envelhecimento cerebral é a resistência cultural. O medo de efeitos psicoativos afasta muitos pacientes e profissionais de saúde. No entanto, este estudo sugere que, ao utilizar microdoses que não induzem alterações perceptíveis de consciência, é possível obter benefícios terapêuticos significativos.

Essas microdoses podem não apenas evitar a psicoatividade, mas também fornecer uma nova abordagem para a prevenção de doenças cognitivas em populações vulneráveis, como idosos com comprometimento cognitivo leve. O futuro da pesquisa em cannabis medicinal está apenas começando, e novos ensaios clínicos serão cruciais para explorar todo o potencial terapêutico dessa planta.

Fabricio Pamplona é doutor em farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina.