Empresas usam terras da união para criar créditos de carbono bilionários

Golden Green e Global Carbon valorizam ativos em áreas públicas proibidas para fins privados

Empresas usam terras da união para criar créditos de carbono bilionários
Área da Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), onde créditos de carbono foram gerados. Foto: Folhapress

Empresas valorizam R$ 45 bilhões em créditos de carbono usando terras públicas da União destinadas à reforma agrária.

Contexto e origem dos créditos de carbono nas terras da União

As empresas Golden Green e Global Carbon, ambas sob gestão dos fundos da Reag investigados pela Polícia Federal, alcançaram uma valorização combinada de mais de R$ 45 bilhões por meio da comercialização de créditos de carbono originados em terras públicas da União. A área em questão, conhecida como Fazenda Floresta Amazônica, localizada no município de Apuí (AM), possui cerca de 143,9 milhões de hectares e é destinada a projetos sociais de reforma agrária, conforme confirmado pelo Incra.

Irregularidades apontadas pelo Incra e medidas adotadas

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) afirma que a comercialização dos ativos ambientais baseados nessa área pública é ilegal e causa danos à União. Para impedir negociações irregulares, o órgão instaurou processo administrativo que vetou o cadastro do imóvel no Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR) e negou sua certificação no Sistema de Gestão Fundiária (Sigef). Esses passos impedem a regularização da área como propriedade privada, fator essencial para garantir direitos exclusivos sobre o território e seus estoques ambientais.

Valorização bilionária sem respaldo legal ou mercadológico

Apesar da situação irregular da terra, múltiplas auditorias e consultorias renomadas precificaram e atualizaram os valores dos créditos de carbono das duas empresas. Auditorias da Ernest Young, PwC e Crowe validaram aumentos sucessivos no valor do ativo, que chegou a R$ 14,6 bilhões para a Golden Green apenas em 2024. Contudo, esses laudos não mencionam as controvérsias sobre a origem dos créditos e se baseiam nos balanços fornecidos pelas próprias empresas, muitas vezes sem auditoria externa confiável.

Diferença entre créditos de estoque e créditos de carbono negociáveis

As duas empresas fundamentam seus valores em estimativas de estoque de carbono calculadas pela Unesp, que avaliou 168,8 milhões de toneladas de CO₂ naquela área. Contudo, créditos de estoque de carbono são estimativas ambientais e não equivalem a créditos de carbono certificados negociáveis no mercado, os quais exigem comprovação de redução efetiva de emissões. Essa distinção é fundamental para entender a fragilidade do ativo contabilizado, que não possui compradores assegurados nem preço de mercado oficial.

Implicações financeiras, legais e ambientais do caso

O avanço do desmatamento e a grilagem na região agravam o caráter sensível das operações. A investigação da Polícia Federal, vinculada à Operação Carbono Oculto, apura suspeitas de lavagem de dinheiro associadas às operações financeiras dos fundos Jade e New Jade 2, que controlam as empresas. Embora as companhias aleguem estar em processo de regularização junto ao Incra, a situação expõe vulnerabilidades no sistema de certificação e fiscalização do mercado de créditos de carbono brasileiro, além dos riscos à integridade das políticas ambientais e sociais relacionadas às terras públicas.

Desafios para o mercado de créditos de carbono e fiscalização

Esse caso evidencia a necessidade de maior rigor regulatório e transparência nos processos de emissão, precificação e comercialização de créditos ambientais no Brasil. A falta de padronização e controles efetivos abre espaço para valorações infladas baseadas em ativos disputados judicialmente, dificultando a confiança dos investidores e a efetividade das políticas climáticas. Autoridades seguem adotando medidas administrativas e judiciais para coibir irregularidades e proteger o patrimônio público e ambiental.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

Fonte: Folhapress