endividamento em dólar ameaça finanças públicas brasileiras

Empréstimos internacionais garantidos pela União ampliam risco fiscal silencioso além das emendas Pix

endividamento em dólar ameaça finanças públicas brasileiras
Vista aérea de uma cidade com avenidas e áreas urbanas, símbolo do crescimento municipal.

Endividamento em dólar de estados e municípios com garantia da União pode comprometer o Tesouro Nacional.

Endividamento em dólar cresce e pressiona finanças públicas brasileiras

O endividamento em dólar de estados e municípios brasileiros, com garantia da União, vem crescendo aceleradamente nos últimos anos. Nos últimos dois anos, foram captados empréstimos internacionais na ordem de US$ 27,7 bilhões, mais que o dobro do biênio anterior, segundo estudo recente divulgado pela FGV Direito Rio. Essa situação cria uma bomba fiscal silenciosa, pois a receita desses entes locais é em reais, porém a dívida está atrelada ao dólar, o que amplia o risco caso ocorra uma desvalorização abrupta da moeda brasileira.

Riscos cambiais e a responsabilidade do Tesouro Nacional

Os empréstimos em moeda estrangeira por estados e municípios aumentam a vulnerabilidade das finanças públicas nacionais pelo descasamento cambial. Uma desvalorização do real frente ao dólar eleva automaticamente o saldo da dívida, tornando mais difícil o pagamento por parte dos governos locais. Como a União atua como fiadora dessas operações, o Tesouro Nacional assume a responsabilidade em caso de inadimplência, o que pode provocar uma crise fiscal severa no âmbito federal. Esse risco é agravado pelo uso de juros pós-fixados atrelados a taxas internacionais e cláusulas contratuais complexas que oneram ainda mais as dívidas.

O papel do Senado e a ausência de regulação específica

O Senado Federal tem autorizado a contratação desses empréstimos desde 2008, com a maioria das resoluções garantindo o aval da União. Essa prática ocorre com anuência do Executivo federal, incluindo órgãos como Casa Civil, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e Secretaria do Tesouro Nacional. No entanto, a Constituição de 1988 determina, no artigo 163, a necessidade de uma lei complementar para disciplinar a dívida externa e as garantias da União, norma que ainda não foi criada. Essa lacuna legal contribui para a expansão do endividamento sem controle rigoroso e transparência.

Exemplos concretos do impacto do endividamento em dólar

O município de São José, em Santa Catarina, é um exemplo emblemático dessa situação. Ele contraiu empréstimo internacional de US$ 43,2 milhões para modernizar 3,7 quilômetros de uma avenida principal, valor que representava mais de 16% da receita anual do município na época. Caso não consiga pagar a dívida, o custo será repassado ao orçamento federal. Esse tipo de operação demonstra o risco moral, onde gestores municipais e estaduais assumem empréstimos com garantia da União, podendo aceitar condições que seriam recusadas se tivessem que arcar integralmente com o risco.

Perspectivas para a estabilidade fiscal e controle do endividamento

O crescimento do endividamento em dólar garantido pela União, a ausência de legislação específica e o elevado volume de empréstimos apontam para uma vulnerabilidade crescente das contas públicas brasileiras. O controle dessa situação requer ações coordenadas entre os poderes Legislativo e Executivo, criando mecanismos legais claros para disciplinar e limitar a contratação de dívidas externas por estados e municípios. Sem essas medidas, o Tesouro Nacional pode enfrentar impactos financeiros severos, comprometendo a estabilidade fiscal do país no médio e longo prazos.

Fonte: www1.folha.uol.com.br