Entidades alertam sobre riscos da licença indenizatória no Legislativo

Coalizão de organizações civis pede veto a projetos que criam licença compensatória para servidores do Congresso Nacional

Organizações civis pedem veto a projetos de lei que criam a licença indenizatória no Legislativo, alertando para aumento de gastos públicos.

A polêmica da licença indenizatória no Legislativo e os pedidos de veto

A licença indenizatória no Legislativo voltou ao centro do debate político em 5 de fevereiro de 2026 com a manifestação de dez organizações da sociedade civil que enviaram um pedido formal ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para vetar integralmente dois projetos de lei já aprovados pelo Congresso Nacional. Essas propostas criam uma licença compensatória para servidores da Câmara dos Deputados e do Senado, um benefício que, segundo as entidades, poderá provocar aumento significativo dos gastos públicos e ainda incentivar um efeito cascata em outras áreas da administração pública.

O pedido das organizações coincide com uma recente decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, que suspendeu o pagamento de verbas indenizatórias sem previsão legal expressa. As associações entendem que a sanção dos projetos legislativos iria contra a orientação do STF, inviabilizando o cumprimento da decisão judicial, o que reforça a importância do veto presidencial.

Entenda o funcionamento da licença indenizatória proposta para servidores do Congresso

Os projetos aprovados pelo Congresso preveem a concessão de uma licença compensatória para servidores da Câmara e do Senado, contudo, com regras distintas para cada casa. Na Câmara dos Deputados, o benefício permitiria que um servidor usufruísse até um dia de licença para cada três dias trabalhados, limitado a dez dias por mês. Já no Senado, a proporção varia entre um dia de licença a cada dez dias trabalhados e um a cada três, conforme o exercício funcional.

Além disso, um ponto controverso é a possibilidade de o servidor receber em dinheiro os dias de licença não utilizados, sem incidência de imposto de renda ou contribuição previdenciária. Essa condição tem levantado questionamentos quanto ao impacto financeiro para os cofres públicos, já que pode representar pagamento de valores extras ao teto constitucional.

Impactos financeiros e riscos para a administração pública apontados pelas entidades

As entidades que compõem a coalizão que pediu o veto alertam para o aumento dos gastos públicos decorrente da institucionalização da licença indenizatória no Legislativo. Eles destacam que conceder esse tipo de benefício, conhecido popularmente como “penduricalho”, pode acarretar em desequilíbrio fiscal, especialmente em um cenário já desafiador para as finanças públicas.

Outro risco destacado é o chamado efeito cascata, onde a adoção desse benefício no Legislativo poderia incentivar outras esferas do serviço público a implementar medidas semelhantes, ampliando ainda mais o impacto financeiro para os cofres públicos. As organizações ressaltam que a medida representa um retrocesso em práticas já abolidas, como a antiga licença-prêmio por assiduidade, que foi eliminada justamente por gerar distorções e custos elevados.

Comparações com práticas do Judiciário e Ministério Público e dados recentes

Embora o pedido das associações seja contra a criação da licença indenizatória no Legislativo, elas reconhecem que órgãos do Judiciário e do Ministério Público adotam, por meio de resoluções internas, benefícios semelhantes. Um levantamento realizado pela Transparência Brasil e pela República.org revelou que, em 2024, o Judiciário pagou cerca de R$ 1,2 bilhão em licença compensatória para aproximadamente 10,7 mil magistrados.

Essa comparação reforça o debate sobre a necessidade de regulamentação transparente e rigorosa desses benefícios, especialmente diante da relevância da responsabilidade fiscal e do controle dos gastos públicos. Para as organizações civis, a aprovação da licença indenizatória no Legislativo significaria uma duplicação de benefícios que já geram controvérsia em outras áreas do serviço público.

A coalizão de entidades e suas preocupações com a transparência e eficiência pública

A coalizão que encaminhou o pedido de veto ao presidente Lula é formada por dez organizações da sociedade civil, entre elas a República.org, Transparência Brasil, Associação Fiquem Sabendo, Centro de Liderança Pública, Livres, Movimento Brasil Competitivo, Movimento Orçamento Bem Gasto, Movimento Pessoas à Frente, Plataforma Justa e Transparência Internacional – Brasil.

Essas entidades defendem a transparência e a eficiência na gestão dos recursos públicos e veem na licença indenizatória uma ameaça à austeridade necessária na administração pública. Segundo elas, a sanção dos projetos legislativos teria um efeito negativo direto na confiança da população, que acompanha atentamente debates sobre privilégios e penduricalhos no setor público.

O debate em torno da licença indenizatória no Legislativo, portanto, transcende a simples concessão de um benefício para servidores, envolvendo questões cruciais sobre responsabilidade fiscal, moralidade administrativa e o compromisso do Estado com o uso eficiente dos recursos públicos.