Remuneração baixa e cobrança de velocidade imposta por plataformas levam motoboys a riscos no trânsito paulistano

Entregadores de app em São Paulo trafegam na contramão sob pressão de algoritmos que cobram rapidez e oferecem baixa remuneração.
Por que entregadores de app trafegam na contramão em São Paulo
A prática de entregadores de app trafegarem na contramão pelas ruas de São Paulo aumentou visivelmente nos últimos tempos, impulsionada diretamente pela pressão dos algoritmos das plataformas digitais. Essa situação, observada em bairros como Perdizes e Vila Madalena, não é fruto apenas de imprudência individual, mas consequência de um sistema que remunera mal e estabelece metas de entrega quase impossíveis. O trabalhador se vê obrigado a acelerar e buscar atalhos ilegais para garantir sua renda, colocando a própria vida e a segurança dos demais em risco.
Impacto dos algoritmos no ritmo e segurança dos entregadores de app
Esses aplicativos monitoram constantemente o tempo de cada entrega por meio de algoritmos que punem atrasos com avaliações negativas e restringem o acesso a corridas futuras. Para conquistar bônus, os entregadores precisam realizar várias entregas em janelas curtas, especialmente nos horários de pico, como o jantar. Essa pressão digital é um incentivo perverso que transforma a necessidade de velocidade em risco constante, estimulando práticas ilegais, como trafegar na contramão ou desrespeitar sinais de trânsito.
Consequências para o trânsito e segurança viária em São Paulo
Em 2025, São Paulo registrou 1.034 mortes no trânsito, sendo 37% delas motociclistas, a maioria jovens homens que atuam como entregadores de aplicativo. O crescimento desse número coincide com o aumento da circulação de motos em condições perigosas, como o uso da contramão para economizar tempo e custos operacionais. O desgaste financeiro causado por quilômetros extras, combustível e manutenção motiva essa conduta, que, apesar de ilegal, é economicamente ‘racional’ para muitos profissionais precarizados.
Limitações da fiscalização e a perspectiva de responsabilização
A fiscalização enfrenta dificuldades para conter esse fenômeno devido ao volume elevado de motos nas ruas e ao caráter individualizado das infrações. Multas podem reduzir casos isolados, mas não atacam a raiz do problema: um modelo de negócios que transfere o risco e a pressão para os entregadores, os membros mais vulneráveis da cadeia produtiva. A criminalização exclusiva do comportamento individual ignora a influência dos algoritmos e do desenho urbano voltado para carros.
Caminhos para uma mobilidade mais segura e justa para entregadores
A discussão deve avançar para temas como remuneração mínima, eliminação de metas abusivas, pagamento por tempo de espera e a implementação de políticas integradas que promovam mobilidade segura e condições dignas de trabalho. Reformular o modelo atual pode diminuir a necessidade da pressa excessiva, reduzindo acidentes e preservando vidas. São Paulo precisa decidir entre acelerar a exaustão de seus trabalhadores ou construir uma cidade que valorize a segurança e a dignidade de todos os seus cidadãos.
Fonte: noticias.uol.com.br





