A análise da relação complexa entre esquerda política, religião e regimes autoritários revela desafios históricos e ideológicos

A esquerda política demonstra uma postura de criticismo econômico moderado diante de regimes teocráticos, evidenciando contradições históricas e ideológicas.
A relação entre esquerda e regimes teocráticos na geopolítica atual
A esquerda e regimes teocráticos apresentam uma conexão complexa e muitas vezes tolerante, especialmente em contextos geopolíticos como o do Irã contemporâneo. Em 2009, por exemplo, o então presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, identificado com a esquerda, minimizou a megafraude eleitoral que reelegeu Mahmoud Ahmadinejad. Recentemente, o Irã recebeu uma proposta de cooperação do governo brasileiro para condenar ações dos Estados Unidos na Venezuela, reforçando essa dinâmica. Essa atitude indica que a esquerda, em geral, é econômica em críticas a regimes teocráticos, especialmente quando estes se posicionam contrariamente ao imperialismo americano.
Marx e a crítica à religião como “ópio do povo”
Karl Marx definiu a religião como “o ópio do povo”, destacando sua função como expressão e protesto contra o sofrimento real das pessoas. Essa crítica permanece relevante para entender a relação da esquerda com a religião e regimes teocráticos. Embora Marx tenha enfatizado a religião como uma ilusão que sustenta a opressão, a esquerda contemporânea raramente adota uma postura rigorosa contra religiões organizadas, refletindo uma inconsistência histórica. O desencantamento religioso costuma ocorrer em nações que prosperam economicamente, indicando que a fé tende a diminuir conforme o desenvolvimento social e material avança.
Exemplos históricos de socialismo e islamismo coexistindo
Regimes pan-arabistas como os liderados por Gamal Abdel Nasser no Egito e pelos partidos Baath na Síria e no Iraque ilustram a coexistência entre ideologias socialistas e o islamismo, apesar do discurso oficialmente secular. Mesmo figuras da esquerda intelectual, como Michel Foucault, chegaram a apoiar temporariamente a teocracia iraniana, demonstrando a complexidade da relação entre esquerda e religião política. Esse fenômeno evidencia que a oposição entre socialismo e teocracia não é sempre clara ou absoluta na prática.
O papel do antiamericanismo na tolerância da esquerda
Um dos fatores que contribui para essa tolerância é o antiamericanismo presente em amplos setores da esquerda. Essa postura crítica em relação aos Estados Unidos frequentemente leva a um alinhamento tácito ou explícito com regimes que se opõem à hegemonia americana, mesmo que esses regimes adotem práticas teocráticas e autoritárias. Assim, o antiamericanismo funciona como uma lente que relativiza as críticas aos governos teocráticos, reforçando alianças estratégicas e ideológicas.
Utopias compartilhadas entre marxismo e religiosidade política
Além do antiamericanismo, existe um vínculo metafísico entre marxistas e religiosos baseado na crença em um princípio redentor e teleológico. Seja na ideia de Deus ou no materialismo histórico, ambos compartilham a fé em uma transformação final que conduzirá a humanidade a um estado de bem-aventurança. Essa crença em utopias facilita a aceitação de narrativas que justificam regimes autoritários como etapas necessárias para a realização de um mundo ideal, tornando mais tênue a crítica da esquerda às teocracias.
Desafios para a esquerda na crítica aos regimes teocráticos
A análise mostra que a esquerda enfrenta um dilema ideológico entre a crítica à religião enquanto sistema de opressão e a aliança pragmática ou simbólica com regimes teocráticos que contestam o poder ocidental. A superação dessa contradição exige um debate aprofundado sobre os limites do apoio a regimes que violam direitos humanos em nome de causas políticas, além de uma reflexão sobre os fundamentos da própria crítica marxista à religião.
Fonte: redir.folha.com.br
Fonte: Hélio Schwartsman





