França enfrenta crise de confiança em títulos públicos com custo de financiamento em 25 anos

Liquidação de títulos franceses elevou prêmio exigido pelos investidores a recorde, enquanto país atravessa turbulência política e protestos estudantis

França enfrenta crise de confiança em títulos públicos com custo de financiamento em 25 anos
Estudantes participam de manifestação em frente ao Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), em Paris, em 7 de outubro de 2026. Foto: Tom Nicholson/Getty Images

A França enfrenta liquidação de títulos públicos com custos de financiamento nos maiores patamares em quase 25 anos, enquanto protestos estudantis e incerteza política amplificam preocupações de investidores.

A França enfrenta crise de confiança entre investidores na capacidade da segunda maior economia da União Europeia de controlar sua dívida crescente. A liquidação de títulos públicos nas últimas semanas elevou os custos de financiamento para patamares não vistos em quase 25 anos. Na sexta-feira, o prêmio exigido pelos investidores para comprar títulos franceses de 10 anos em lugar dos italianos atingiu um recorde, segundo informações do mercado.

O país atravessa período de turbulência política intensificado por protestos de centidades de milhares de jovens em todo o território e episódios de violência. Estudantes reivindicam cerca de €10 bilhões (R$ 55 bilhões) do governo. Na Assembleia Nacional, o deputado da esquerda radical Louis Boyard, de 26 anos, confrontou o ministro da Educação, Edouard Geffray, durante debate na semana passada.

“Vocês são incapazes de entender o que os jovens querem”, gritou o parlamentar. “Para resolver tudo isso, vocês vão ter que abrir o talão de cheques.”

A França dificilmente conseguirá arcar com o montante reivindicado pelos estudantes. Após atravessar várias crises recentes que impulsionaram gastos públicos, o país vê a confiança de investidores ruir diante do crescimento e do encarecimento da dívida. As preocupações com as contas públicas concentram-se atualmente nas negociações do orçamento, mas devem se estender até a eleição presidencial de 2027 e além.

Investidores acompanham com apreensão os principais candidatos à presidência. Um deles defende metas fiscais consideradas pouco críveis por analistas. Outro aventou a ideia extrema de cancelar dívidas, segundo avaliações de especialistas do mercado.

Michel Sapin, ministro das Finanças da França nos anos 1990 e novamente entre 2014 e 2017, atribuiu a crise a múltiplos fatores. “Há uma combinação de atividade econômica fraca, gravidade da crise orçamentária e preocupações com a eleição presidencial”, afirmou. “A incerteza política alimenta e amplifica preocupações reais.”

Sem uma saída clara para a crise, cresce a especulação sobre como o país conseguirá restabelecer a confiança de investidores internacionais nos próximos meses.