Incertezas enfraquecem o plano clima no combate ao aquecimento global

Plano Clima enfrenta dúvidas sobre metas e estratégias para agricultura e energia até 2035

O Plano Clima apresenta incertezas nas metas para agronegócio e energia, colocando em risco ações efetivas contra o aquecimento global.

Panorama geral do Plano Clima e suas metas para 2035

O Plano Clima, apresentado pelo governo federal, estabelece metas para a redução entre 59% e 67% das emissões nacionais de carbono até 2035, considerando como ano base 2005. A intenção de compatibilizar essas metas com o crescimento econômico é legítima, mas gera dúvidas quanto à escolha das estratégias adotadas. O documento foi divulgado quase dois meses após sua aprovação, e apenas um sumário executivo com poucos detalhes setoriais foi disponibilizado, o que reforça a incerteza sobre sua implementação.

Desafios e desequilíbrios no agronegócio, maior emissor do país

O agronegócio é apontado como a principal fonte de gases do efeito estufa no Brasil, especialmente pelo desmatamento. No entanto, o Plano Clima diminui a importância desse fator ao reduzir os objetivos de combate ao desflorestamento, principalmente em terras públicas. Em 2022, as terras públicas emitiram 448 milhões de toneladas de CO2 equivalente devido ao desmate, mas o plano prevê que essas áreas passem a sequestrar carbono à taxa anual de 248 milhões de toneladas por meio de florestas regeneradas ou plantadas. Já as áreas rurais privadas terão uma redução menor de 30 milhões de toneladas. Curiosamente, a agropecuária nessas terras privadas poderá aumentar suas emissões de 643 para 653 milhões de toneladas até 2035, o que pode favorecer produtores resistentes a políticas ambientais mais duras.

Setor de energia: aumento das emissões e resistência à descarbonização

Ao contrário do setor agrícola, o setor energético apresenta previsão de aumento das emissões, passando de 80 para 115 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Essa tendência demonstra a resistência do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em abandonar os combustíveis fósseis. Apesar do crescimento das fontes renováveis eólica e fotovoltaica, o plano considera essa expansão um problema devido à intermitência desses modais, sem previsão adequada para armazenamento ou melhorias na rede de distribuição. A estabilidade do sistema continua garantida com termelétricas a gás e carvão, além da possibilidade de expansão da geração nuclear, mantendo o modelo energético atual.

Impactos e crítica ao modelo atual para o combate ao aquecimento global

Especialistas e analistas destacam que o Brasil poderia realizar esforços muito maiores para o combate ao aquecimento global. A confiança excessiva na redução do desmatamento e no aumento da recuperação florestal em níveis inéditos é vista como uma estratégia arriscada e pouco realista. O desequilíbrio entre o tratamento dos setores agrícola e energético no Plano Clima indica escolhas políticas que favorecem o desenvolvimento econômico imediato em detrimento da sustentabilidade ambiental a longo prazo.

Perspectivas e necessidade de ajustes no Plano Clima para garantir resultados

Para que o Plano Clima seja efetivo no cumprimento das metas do Acordo de Paris, é fundamental que haja revisão das estratégias, principalmente nas áreas de maior impacto, como o agronegócio e a matriz energética. O alinhamento das políticas governamentais com objetivos ambientais claros e ambiciosos, além do fortalecimento do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, pode contribuir para reverter o cenário atual de incertezas e desequilíbrios, promovendo ações mais efetivas contra o aquecimento global no Brasil.