Pesquisa da CNI revela impacto dos juros elevados no acesso ao crédito e investimentos industriais
CNI identifica que 80% das indústrias enfrentam juros altos como maior barreira para crédito, prejudicando investimentos e expansão.
O aumento dos juros tem se mostrado um dos principais impeditivos para o acesso ao crédito pelas indústrias brasileiras. Conforme a pesquisa Sondagem Especial nº 98 – Condições de Acesso ao Crédito em 2025, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e divulgada em 20 de janeiro de 2026, 80% dos empresários do setor industrial que enfrentaram dificuldades para obtenção de crédito atribuem esse desafio às taxas elevadas de juros.
Juros altos como barreira para o crédito industrial
A pesquisa destacou que, no cenário de uma taxa Selic em 15% ao ano, com juros reais próximos a 10%, o custo para financiar operações de curto, médio e longo prazo torna-se proibitivo para muitas empresas. Essa realidade limita especialmente o investimento em expansão da capacidade produtiva e inovação, elementos fundamentais para aumentar a competitividade da indústria nacional.
Além dos juros, outras dificuldades mencionadas foram a exigência de garantias reais, como imóveis e máquinas, que 32% dos entrevistados citaram para linhas de crédito de até cinco anos, e a falta de produtos financeiros adequados às necessidades das empresas, apontada por 17%.
Impacto na busca e obtenção de crédito
A pesquisa revelou que 54% das empresas industriais não tentaram contratar ou renovar crédito de longo prazo nos seis meses anteriores à sondagem (fevereiro a julho de 2025). No curto e médio prazo, esse percentual foi de 49%. Dentre as que buscaram financiamento, cerca de um terço não conseguiu obter crédito no longo prazo, enquanto no curto e médio prazo o índice de insucesso foi de aproximadamente 20%.
O problema foi mais agudo para empresas de médio porte, que registraram 43% de frustração na tentativa de crédito de longo prazo, seguidas por pequenas empresas com 37% e grandes com 27%. No curto e médio prazo, a taxa de insucesso atingiu 26% nas médias, 21% nas pequenas e 16% nas grandes.
Condições de crédito em deterioração
As condições para renovação de crédito também pioraram, segundo a CNI. Entre as empresas que renovaram operações de curto e médio prazo, 35% relataram que os juros, prazos, carência ou exigência de garantias tornaram-se piores ou muito piores entre fevereiro e julho de 2025. Para o crédito de longo prazo, 33% perceberam a mesma deterioração.
Apenas uma parcela reduzida das empresas conseguiu renovar crédito em condições melhores: 14% para curto e médio prazo e 12% para longo prazo. Para 47%, as condições permaneceram semelhantes.
Baixa adesão a modalidades alternativas
Outro destaque da pesquisa é a baixa adesão à modalidade de risco sacado, uma operação financeira que envolve fornecedor, comprador e instituição financeira. Apenas 13% das empresas afirmaram ter contratado esse tipo de crédito nos 12 meses anteriores à pesquisa, e apenas 5% pretendiam fazê-lo nos próximos 12 meses.
Desafios para a indústria diante do cenário monetário
Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI, ressaltou que a política monetária vigente, caracterizada por sua rigidez, encarece o crédito e, consequentemente, desestimula investimentos essenciais para o desenvolvimento do setor industrial. Essa conjuntura pode limitar o potencial de crescimento e a capacidade competitiva do segmento no mercado nacional e internacional.
Metodologia da pesquisa
A Sondagem Especial nº 98 ouviu 1.789 empresas industriais entre 1º e 12 de agosto de 2025, com participação de 713 pequenas, 637 médias e 439 grandes empresas, garantindo uma amostra representativa do setor.
A análise evidencia que a persistência de juros elevados, aliada a outras restrições, constitui um entrave significativo para a expansão do crédito e dos investimentos industriais no Brasil, apontando para a necessidade de políticas que possam equilibrar o controle inflacionário com o estímulo ao crescimento econômico.





