O medo da rua e a doença da cidade: análise sobre a crise da mobilidade urbana em São Paulo
O medo da rua reflete a crise da mobilidade urbana em São Paulo, com aumento das mortes no trânsito e perda da urbanidade.
O medo da rua é um sintoma claro da doença que aflige a mobilidade urbana em São Paulo. Conforme destaca o antropólogo Olivier Mongin, quando a cidade valoriza espaços de passagem em detrimento dos espaços de permanência, indica um problema estrutural que compromete a vida pública e social.
Crescimento das mortes no trânsito e impacto social
Em 2025, São Paulo registrou 1034 mortes no trânsito, sendo que o segmento que mais cresceu foi o de pedestres, com 410 fatalidades — o maior número em uma década. Essa estatística revela a gravidade da situação: pessoas comuns, que realizavam atividades cotidianas como ir ao trabalho, à escola ou ao mercado, acabam vítimas fatais de um sistema urbano inseguro.
Além das mortes, há um vasto número de feridos e acidentes, constituindo um iceberg de sofrimento que frequentemente fica invisível nas estatísticas oficiais. Esse cenário alimenta um ciclo de medo que altera comportamentos, fazendo com que moradores evitem sair de casa, usem menos espaços públicos e optem por meios de transporte individuais, como o carro, que por sua vez aumentam o congestionamento e os riscos no trânsito.
Perda da urbanidade e convivência social
O medo da rua impacta diretamente a urbanidade — a capacidade da cidade de promover encontros e relações entre seus habitantes. Mães deixam de permitir que crianças andem sozinhas, pessoas com mobilidade reduzida evitam sair, e a rotina cotidiana muda para evitar o contato social e a exposição a riscos.
Essa retração social compromete a qualidade de vida e a diversidade que caracterizam as cidades vibrantes e acolhedoras.
Responsabilidades e falhas na gestão pública
Embora seja possível identificar condutas individuais irresponsáveis, como motoristas usando celular, motociclistas desrespeitando sinais e ônibus acima da velocidade, o problema é muito maior e envolve falhas sistêmicas.
A Prefeitura, encarregada pela fiscalização e organização do trânsito, demonstra omissão, ao não mensurar adequadamente as fatalidades e evitar a fiscalização rigorosa para não ser rotulada como “indústria de multas”. A escassez de agentes da CET nas ruas fortalece essa fragilidade institucional.
Medidas em potencial para reverter a situação
Existem estratégias reconhecidas que podem contribuir para reduzir os acidentes e melhorar a mobilidade:
Redesenho das ruas com redução de velocidades;
Ampliação das calçadas e melhoria das travessias para pedestres;
Projetos como “Áreas Calmas”, que promovem zonas de baixa velocidade com sinalização específica;
Análise e correção dos pontos mais perigosos com base em dados inteligentes;
- Cooperação entre o governo municipal e estadual para gestão integrada das vias, especialmente em áreas metropolitanas.
Apesar da existência desses projetos, sua implementação ainda é limitada e insuficiente para enfrentar os desafios atuais.
Necessidade de diagnóstico e ação efetiva
Ao completar mais um aniversário, São Paulo deve reconhecer que a doença do trânsito não é apenas uma questão de mobilidade, mas um problema urbano que afeta a vida, a saúde e a sociabilidade de seus habitantes. O medo da rua evidencia uma crise que demanda diagnóstico sério e ações urgentes para garantir a segurança, a convivência e a qualidade de vida na cidade.





