Reflexões sobre a crise climática e suas consequências em São Paulo

O debate sobre a Enel esconde questões mais profundas sobre a crise climática em São Paulo.
A recente discussão sobre os apagões recorrentes em São Paulo, atribuídos à prestação de serviços da Enel, mergulha em um cenário de crise que transcende a mera insatisfação com a empresa. Os blecautes repetidos em 2023, 2024 e agora em 2025 refletem uma realidade mais complexa: a mudança do clima está na raiz do desastre, um problema que, por si só, uma única empresa não pode resolver.
A superficialidade do debate público
O governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes foram rápidos em pedir o cancelamento do contrato com a Enel, como se essa fosse a solução mágica para os problemas de distribuição de energia na Grande São Paulo. No entanto, essa abordagem simplista ignora o contexto mais amplo que envolve a crise climática e suas consequências devastadoras.
A retórica de que a privatização do setor elétrico é a raiz de todos os males é igualmente enganosa. A história mostra que problemas dessa magnitude não surgem apenas da busca pelo lucro privado, mas de uma série de decisões políticas e administrativas falhas ao longo do tempo.
Impactos da mudança climática
As tempestades e vendavais que atingem a região metropolitana não são meros caprichos da natureza; são evidências palpáveis das consequências da mudança climática. Ventos de até 100 km/h, que antes eram raros, estão se tornando comuns, derrubando árvores e danificando a infraestrutura elétrica. Essa nova realidade traz uma série de desafios que exigem uma resposta coordenada e eficaz.
Em meio a essa crise, as promessas de transição energética e adoção de soluções sustentáveis soam vazias se não forem acompanhadas de ações concretas. A dependência de combustíveis fósseis continua a agravar a situação, e a necessidade de uma mudança real se torna cada vez mais urgente.
O custo invisível da inação
O que muitos parecem ignorar são os custos invisíveis da inação. Quanto vale a vida de uma pessoa que poderia ser salva em uma emergência causada por um apagão? E os prejuízos econômicos que se acumulam a cada nova tempestade? Estima-se que os danos diretos, como perda de mercadorias e interrupções nos serviços, já somem bilhões, sem contar os impactos sociais e psicológicos que a população enfrenta.
Os cálculos que envolvem enterrar a fiação elétrica em São Paulo, por exemplo, variam entre R$ 90 bilhões e R$ 320 bilhões. Essa quantia astronômica contrasta com os R$ 2 bilhões de perdas estimadas pelo comércio durante o último apagão. Mas será que essa conta realmente abrange todas as perdas, como as horas de trabalho desperdiçadas, os eletrodomésticos danificados, e a saúde mental da população afetada?
O verdadeiro desafio está em reconhecer a interconexão entre as questões climáticas e as políticas públicas. Apenas desviar o olhar para os problemas gerados pela Enel não resolverá a raiz do problema; é preciso um esforço coletivo para enfrentar as consequências da mudança climática e promover uma adaptação real e eficaz à nova realidade que se apresenta. O debate deve ir além do superficial e confrontar a urgência da situação com ação e responsabilidade.
O que está em jogo é mais do que a eficiência de uma empresa; são vidas, bem-estar e o futuro de uma sociedade que já enfrenta desafios sem precedentes.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Marcelo Leite





