No jogo político, a vaga é do time, não apenas do artilheiro

A confusão está feita em Ponta Grossa. A vereadora Marisleidy Rama, eleita pelo PMB, votou contra um projeto importante do Executivo e agora está sendo processada pelo próprio partido. Há quem diga que ela foi infiel à legenda, que não seguiu o combinado e que pode até perder o mandato. Do outro lado, Marisleidy afirma que está sendo perseguida, que foi fiel ao povo e que a cadeira é dela porque foi eleita nas urnas. Surge então a pergunta: afinal, de quem é o mandato?

Essa pergunta parece simples, mas envolve um tema que pouca gente entende bem. É preciso explicar como funciona o sistema eleitoral no Brasil.

Existem dois tipos de eleição: a majoritária e a proporcional. Na eleição majoritária, vence quem tem mais votos. É o caso de prefeito, governador, presidente e senador. Nesse modelo, o mandato é da pessoa eleita.

Para vereadores e deputados, a lógica é diferente. A eleição é proporcional. Isso quer dizer que o eleitor vota em uma pessoa, mas o resultado depende da soma de todos os votos que o partido recebe. O total de cadeiras na Câmara é definido por essa soma, que inclui tanto os votos dados diretamente aos candidatos como os votos dados apenas ao partido.

Depois que se sabe quantas cadeiras o partido conquistou, elas são preenchidas pelos candidatos mais votados daquela legenda. É por isso que, juridicamente, o mandato proporcional é considerado do partido e não do vereador ou deputado.

Esse sistema existe para que os partidos tenham força coletiva e possam defender suas ideias no parlamento. Ele não é perfeito, mas é a regra. E, por essa regra, quando alguém se elege por um partido e depois rompe com ele, pode perder o mandato. Só não perde se provar que houve perseguição pessoal, mudança drástica no partido ou se trocar de legenda dentro do período permitido.

Voltando ao caso da vereadora Marisleidy. Ela foi eleita pelo PMB e, no fim de julho de 2025, votou contra um projeto do Executivo que gerou discussões. Pouco tempo depois, o PMB estadual anunciou a abertura de um processo disciplinar contra ela. O partido disse que não foi apenas pelo voto, mas também por um histórico de desentendimentos, mensagens ofensivas de assessores e uma postura de independência desde o início do mandato.

Marisleidy se defendeu publicamente. Disse que não foi avisada oficialmente, que soube pela imprensa e que apenas cumpriu seu papel de fiscalizar. E perguntou: “desde quando ser fiel ao povo virou infidelidade partidária?”. A frase se espalhou e agradou principalmente quem desconfia da política tradicional.

Mas é preciso olhar para além da emoção. A vereadora pode ter recebido muitos votos, mas só conseguiu se eleger porque o PMB, como partido, somou votos suficientes para conquistar uma cadeira na Câmara. Esses votos vieram não apenas dela, mas também dos outros candidatos da legenda e das pessoas que votaram no número do partido. É como num time de futebol: o gol da vitória pode ser de um jogador, mas a conquista é do time inteiro. E, nesse jogo, a vaga é do time, não apenas do artilheiro.

Algumas pessoas podem achar isso injusto, mas é assim que funciona a eleição proporcional no Brasil. E é justamente por isso que a política precisa explicar melhor como funciona, para evitar interpretações erradas.

A situação ficou ainda mais tensa porque, depois do voto de Marisleidy, alguns cargos comissionados ligados ao PMB foram exonerados. No Brasil, esse tipo de movimentação não é incomum e faz parte da chamada política de coalizão. Em governos, é comum que diferentes partidos formem uma base de apoio para aprovar projetos e manter estabilidade administrativa. Dentro dessa lógica, cargos de confiança, também chamados de cargos comissionados, são ocupados por pessoas indicadas por aliados políticos que ajudam a sustentar essa base. Quando um partido ou parlamentar se afasta dessa base ou passa a votar contra projetos importantes para o governo, a relação política muda. E, mudando essa relação, muda também a ocupação desses cargos. Isso não é necessariamente uma punição individual, mas sim uma consequência natural de como o sistema político funciona. Se um grupo deixa de participar da aliança, deixa também de participar dos espaços que essa aliança oferece. É como num time em que a escalação muda quando alguém decide jogar em outro lado do campo.

A vereadora, por sua vez, afirma que não fez acordos, que não nomeou ninguém e que, se houve exonerações, elas não passaram pelo seu gabinete.

Se é verdade ou não, ainda não se sabe. Mas fica uma pergunta: por que a política não se preocupa em explicar de forma clara para a população como e por que certas decisões são tomadas? Quando a comunicação é direta e transparente, o cidadão entende melhor as razões de cada ato e pode avaliar com mais justiça a conduta de partidos e parlamentares.

No fim das contas, sim, a vereadora pode perder o mandato se o partido provar que ela quebrou as regras da legenda. E sim, o partido tem o direito de abrir o processo, desde que siga o estatuto e garanta defesa.

O mais importante, porém, não é decidir agora quem está certo ou errado. O que falta é clareza. É traduzir o funcionamento da política para uma linguagem simples. Ela precisa ser compreendida por todos os cidadãos, para que tenham discernimento ao receber as informações e formar seu juízo de valor.

Se a política não for compreendida por essas pessoas, então ela não está cumprindo seu verdadeiro papel. No fim das contas, não é apenas um mandato que está em disputa.

É a confiança da população na democracia.

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