Proteger crianças não é censura

Há temas que deveriam ser território neutro. Proteger crianças da exploração sexual, impedir a adultização precoce e punir quem lucra com a vulnerabilidade alheia não deveria ter lado. Mas quando o assunto é a internet, até isso se transforma em disputa.

O vídeo do Felca, com milhões de visualizações, fez o que anos de relatórios e audiências públicas não conseguiram: colocou no colo da sociedade a verdade que todos fingiam não ver. Existe um mercado bilionário que transforma crianças em produto para alimentar algoritmos e contas bancárias. É disso que trata a regulamentação das redes.

Para entender melhor, imagine que cada rede social é uma cidade virtual. Nela, você passeia por ruas, entra em lojas, compra coisas, assiste a shows, conversa com amigos. Como qualquer cidade, também há praças, bares e esquinas mal-iluminadas. E, como em qualquer cidade, também existe gente disposta a cometer crimes.

Na cidade real, quem rouba, agride ou explora é investigado, julgado e condenado. Há leis, polícia, promotores, juízes. Há regras que garantem a convivência. Nas cidades virtuais, essa estrutura não existe. Ali, quem comete crimes muitas vezes não é incomodado. E as vítimas são silenciadas não por censura, mas por abandono.

A regulamentação das redes é justamente isso: criar um poder de polícia no ambiente digital, para responsabilizar quem comete abusos e proteger quem ainda não tem maturidade para se proteger sozinho. Não é calar a internet. É colocar semáforos, guardas e delegacias onde hoje só existem outdoors e caixas registradoras.

E esse não é o primeiro debate em que a sociedade gritou “exagero” para depois reconhecer que se tratava apenas de bom senso. Foi assim com o cinto de segurança. Quando ele se tornou obrigatório, nos anos 90, muitos reclamaram. Diziam que era incômodo, que limitava a liberdade do motorista, que seria impossível fiscalizar. O tempo mostrou o contrário. Quem usava cinto sobrevivia, quem não usava morria. Hoje, o que parecia exagero virou hábito, e mais que isso, virou consenso.

Foi assim também com a lei antifumo. No início, o argumento era de que bares e restaurantes perderiam clientes, que seria um atentado à liberdade do fumante, que se tratava de uma intervenção indevida do Estado. O tempo novamente mostrou o contrário. Ninguém sente falta de respirar fumaça em ambientes fechados. O ar limpo virou regra de civilização, e os negócios não quebraram. Ao contrário, se adaptaram e prosperaram.

A internet vive esse mesmo momento. A resistência é a mesma, os argumentos são os mesmos e o resultado será o mesmo. O que hoje se chama censura, amanhã será entendido apenas como proteção. O cinto de segurança não calou motoristas, apenas salvou vidas. A lei antifumo não impediu ninguém de fumar, apenas protegeu quem não tinha escolha de respirar. A regulamentação das redes não silenciará adultos, apenas protegerá crianças e responsabilizará empresas que fingem não ver o crime acontecendo nas esquinas digitais.

Proteger crianças não é censura. É dever legal, obrigação moral e responsabilidade coletiva. E, como aconteceu com o cinto e com o cigarro, daqui a alguns anos será visto apenas como o óbvio.

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