Especialista defende revisão da concessão e uso misto de prédios públicos para fortalecer o Vale do Anhangabaú

Requalificação do Anhangabaú propõe abrir o parque ao público, revisar concessão e estimular uso misto em prédios do centro para atrair moradores e investimentos.
Avançar pela rua Formosa sob o viaduto do Chá no centro histórico de São Paulo tem se tornado um desafio para pedestres, especialmente em dias de grandes eventos no Vale do Anhangabaú. Desde que a iniciativa privada assumiu a gestão da área em dezembro de 2021, o acesso ao espaço de 43 mil m² é frequentemente restrito para apresentações musicais e outras atividades que cobram ingresso, limitando o uso público do parque urbano que foi reconstruído com um investimento de R$ 105 milhões na gestão do então prefeito Bruno Covas.
Proposta para a requalificação do Anhangabaú
O arquiteto Silvio Oksman, especialista em modernização de edificações antigas, defende uma profunda revisão da concessão atual do Vale do Anhangabaú com o objetivo de garantir que o espaço seja aberto e gratuito ao público em sua totalidade. A ideia principal é que o local deixe de funcionar como uma arena reservada para eventos privados e se transforme em um parque urbano acessível a todos, com serviços e atrações permanentes para a população.
Segundo Oksman, essa mudança contribuiria para reduzir os conflitos gerados pelo excesso de barulho e pelo fechamento do espaço, problemas que desestimulam investimentos imobiliários residenciais no entorno, fundamental para o repovoamento do centro da cidade.
Uso misto e concessões de prédios públicos
O arquiteto aponta que as bordas do Vale do Anhangabaú são marcadas por uma série de prédios antigos, muitos deles pertencentes ao poder público municipal e atualmente subutilizados. A proposta inclui a concessão desses imóveis para a iniciativa privada, com incentivos para a transformação em usos múltiplos, tais como habitação social, residências de classe média e escritórios.
Os recursos advindos dessas concessões seriam vinculados à manutenção e operação do parque, garantindo sua sustentabilidade financeira e possibilitando a reativação de equipamentos como os 850 jatos d’água instalados sob o piso do vale, que hoje permanecem desligados a maior parte do tempo.
Incentivos para revitalização e urbanismo tático
Além da concessão de imóveis, o plano prevê a criação de novos estímulos municipais para incentivar a recuperação de prédios no entorno, aproveitando a legislação que já oferece benefícios como isenções fiscais e reembolso parcial de obras. Essa estratégia visa qualificar a região de forma integrada, tornando-a mais atraente para moradores e investidores.
Oksman também sugere o uso de urbanismo tático, com a instalação temporária de cadeiras, mesas e equipamentos esportivos, tornando o Anhangabaú um espaço mais convidativo e dinâmico para o público, reforçando sua função como um parque urbano vivo.
Reativação de equipamentos e atração do mercado imobiliário
Equipamentos criados na reforma, como os quiosques laterais, que hoje permanecem fechados e cercados, seriam reativados para oferecer serviços aos frequentadores. A revitalização completa do Anhangabaú tem o potencial de gerar um efeito multiplicador, atraindo o mercado imobiliário para realizar retrofits e novas construções no centro e impulsionando o repovoamento da região.
Segundo o arquiteto, “a qualificação do Anhangabaú pode qualificar seu entorno imediato de forma brutal”, transformando o local em um cartão postal funcional e vibrante para a capital paulista.
Situação atual e respostas
O edifício Ermírio de Moraes, conhecido como antigo hotel Esplanada, localizado nas proximidades, abriga atualmente as secretarias de Agricultura e Turismo do governo estadual, sem estudos para desocupação. Até a publicação deste texto, a gestão municipal e a concessionária Viva o Vale não se manifestaram sobre as propostas do especialista ou sobre eventuais alterações na concessão.
A revisão da concessão e a adoção das medidas propostas sinalizam um caminho para que o Vale do Anhangabaú deixe de ser apenas um palco para eventos isolados e se torne um parque público plenamente funcional, capaz de integrar lazer, cultura, habitação e desenvolvimento urbano sustentável no coração de São Paulo.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Eduardo Knapp/Folhapress





