Selic cai para 13,75%: quais dívidas as empresas devem renegociar primeiro?

Com a redução da taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira (16), empresas ganham um novo estímulo para revisar dívidas contratadas durante o período de juros mais elevados. O movimento, porém, não significa que todo financiamento deva ser imediatamente renegociado. A redução de 0,25 ponto percentual foi decidida por unanimidade e representa o quinto corte consecutivo da taxa básica de juros. Apesar da continuidade da flexibilização monetária, o Banco Central manteve uma postura cautelosa diante das incertezas no cenário econômico.

Para Gabriel Timm, diretor de investimentos da Trio, empresa especializada em tecnologia para pagamentos, o novo cenário torna especialmente importante olhar para três características antes de substituir uma dívida: indexador, prazo e custo de saída. “A queda da Selic naturalmente faz o empresário olhar para as dívidas que contratou quando o dinheiro estava mais caro. Mas não existe uma regra dizendo que toda dívida precisa ser renegociada. É preciso fazer a conta contrato por contrato, porque em alguns casos o custo para sair da operação atual pode consumir toda a economia que seria obtida com uma taxa menor”, explica Timm.

O primeiro passo é separar os contratos pós-fixados dos prefixados. Dívidas pós-fixadas vinculadas ao CDI já tendem a capturar parte do benefício da redução dos juros automaticamente. Em uma operação contratada a CDI mais um determinado spread, por exemplo, a parcela relacionada ao CDI diminui conforme as taxas recuam.

Nesses casos, segundo Timm, a análise deve se concentrar principalmente no spread cobrado pela instituição financeira. “Se a dívida acompanha o CDI, uma parte do benefício dos cortes já chega à empresa sem necessidade de renegociação. O que vale revisar é se o spread contratado continua competitivo. Uma empresa que melhorou seu perfil financeiro ou contratou crédito em um momento de maior percepção de risco pode ter espaço para negociar essa parcela do custo”, afirma.

A situação é diferente nas operações prefixadas. Como a taxa foi definida na contratação, ela permanece igual independentemente das decisões posteriores do Copom. Uma companhia que tenha contratado uma linha prefixada a 16% ao ano, por exemplo, continuará pagando os mesmos 16% mesmo com a Selic agora em 13,75%. Quanto maior for a diferença entre a taxa contratada e as novas condições disponíveis no mercado, maior tende a ser o incentivo para avaliar uma substituição da dívida.

“Os contratos prefixados firmados em momentos de juros mais elevados são candidatos naturais a entrar primeiro nessa análise. Eles não acompanham automaticamente o ciclo de queda e podem ficar cada vez mais distantes das condições disponíveis no mercado”, diz Timm.

O segundo critério é o prazo. Passivos que vencem nos próximos seis a 12 meses podem oferecer uma oportunidade de substituição por novas linhas em condições melhores sem necessariamente exigir uma renegociação antecipada. Nesse caso, a recomendação é começar a preparar a operação antes do vencimento, comparando propostas e organizando a documentação necessária.

Para contratos com apenas 30 a 90 dias restantes, antecipar a liquidação pode não compensar. Dependendo das condições, esperar o vencimento e contratar uma nova operação tende a ser mais simples. Já dívidas prefixadas de longo prazo exigem atenção maior porque podem manter um custo elevado no balanço durante anos.

“O prazo determina tanto o potencial de economia quanto a urgência. Se faltam poucas semanas para uma dívida vencer, muitas vezes não faz sentido assumir custos para sair dela. Se ainda existem dois ou três anos de um contrato com taxa elevada pela frente, a economia potencial pode ser muito maior”, explica Timm.

Taxa menor não significa necessariamente dívida mais barata

Antes de substituir uma operação, entretanto, a empresa precisa calcular quanto efetivamente custa deixar o contrato atual. Multas por pagamento antecipado, despesas para liberação ou registro de garantias e outras condições previstas no financiamento podem reduzir ou até eliminar a vantagem proporcionada pela nova taxa.

Por isso, a comparação não deve considerar somente os juros anunciados pela instituição financeira. O cálculo precisa confrontar o fluxo financeiro completo das duas alternativas: quanto custará manter o contrato atual até seu vencimento e quanto custará liquidá-lo e contratar uma nova operação.

“Um erro comum é comparar apenas duas taxas. A empresa olha para uma dívida contratada a 16% e encontra uma nova oferta aparentemente mais barata. Só que pode existir multa para liquidação antecipada, novas garantias ou outros custos. O número relevante é quanto dinheiro efetivamente sairá do caixa até o fim de cada alternativa”, afirma Timm.

A mesma atenção deve ser aplicada às propostas de alongamento de prazo. Uma parcela mensal menor pode aliviar o caixa no curto prazo, mas aumentar o montante total de juros pagos durante a vida do contrato. Períodos de carência também precisam ser avaliados com cuidado. Suspender temporariamente o pagamento das parcelas não significa necessariamente interromper a incidência de juros sobre o saldo devedor.

Quando é melhor não renegociar

Mesmo com a Selic em queda, algumas dívidas podem permanecer como estão. É o caso de operações pós-fixadas que já possuem spreads competitivos, contratos muito próximos do vencimento ou renegociações que exigiriam garantias adicionais relevantes. “Não faz sentido trocar uma dívida saudável simplesmente porque apareceu uma taxa nominal menor. Se para conseguir essa condição a empresa precisa comprometer um imóvel, recebíveis ou outros ativos que poderiam servir como garantia no futuro, existe um custo estratégico que também precisa entrar na decisão”, explica Timm.

A recomendação é evitar decisões generalizadas. Em vez de determinar que todo o passivo será renegociado, a empresa pode construir uma fila de prioridades. No topo estariam contratos prefixados significativamente acima das condições atuais de mercado e com prazo relevante pela frente. Depois, poderiam ser avaliadas operações pós-fixadas cujos spreads estejam elevados. Contratos próximos do vencimento ou que já possuam condições competitivas podem permanecer fora da renegociação.

Organização financeira aumenta poder de negociação

A capacidade de aproveitar o ciclo de juros menores também depende da qualidade das informações financeiras disponíveis. Antes de procurar bancos ou instituições financeiras, a empresa deve mapear seus contratos, vencimentos, indexadores, garantias e custos. Também é importante conhecer o custo efetivo de cada operação e ter projeções de fluxo de caixa que permitam entender quanto de dívida pode ser carregado nos próximos meses.

“Quem chega para negociar sabendo exatamente quanto deve, quando cada contrato vence, qual é o indexador, quais garantias estão comprometidas e quanto aquela operação efetivamente custa tem muito mais capacidade de comparar propostas. Renegociação de dívida começa com informação”, afirma Timm.

Essa organização também permite agir mais rapidamente quando surgem condições favoráveis. Para o especialista, a queda dos juros deve ser vista menos como um chamado para assumir novas dívidas e mais como uma oportunidade para revisar a estrutura de capital da companhia. “Um ciclo de queda abre oportunidades, mas a decisão não deve ser simplesmente trocar dívida velha por dívida nova. O objetivo precisa ser melhorar a estrutura financeira da empresa. Às vezes isso significa reduzir a taxa; em outros casos, alongar um vencimento, liberar uma garantia ou simplesmente manter um bom contrato que já está se beneficiando da queda do CDI”, conclui Timm.

Sobre a Trio

Criada em 2020 por Peterson Ferreira dos Santos e Manoel de Oliveira Souza, empreendedores com forte experiência em tecnologia e mercado financeiro, a Trio é especializada em tecnologia para pagamentos, atua como uma Instituição de Pagamento regulada pelo Banco Central (IP 619) e como Gestora de Recursos com registro na CVM. O grande diferencial da Trio está em sua conta corporativa feita sob medida para times financeiros e concebida para entregar alta performance em operações financeiras de ponta a ponta, sem intermediários.  A Trio desenvolve soluções voltadas especialmente para o ambiente corporativo, com destaque para ferramentas de gestão financeira, integração por APIs, sistemas de conciliação facilitada e soluções baseadas em Pix. Para mais informações, acesse o site www.trio.com.br e o perfil oficial da Trio no Instagram: @trio.fin.