Trump questiona eleição no Brasil mas negocia com Lula

Presidente dos EUA insinua fraude sem provas, mas preserva canais diplomáticos com o governo eleito

Trump questiona eleição no Brasil mas negocia com Lula
Presidente dos EUA Donald Trump fala com membros da imprensa antes de embarcar no Marine One. Foto: Mehmet Eser/Anadolu via Getty Images

Donald Trump disse que o resultado da eleição brasileira lhe pareceu terrível e insinuou fraude sem provas, mas afirmou se dar bem com Lula.

Donald Trump questionou o resultado das eleições brasileiras, descrevendo-o como “terrível” e insinuando, sem apresentar provas, que o pleito poderia ter sido fraudado. Na sequência, o presidente dos Estados Unidos afirmou gostar do presidente eleito Lula. “Eu me dou bem com ele”, disse.

A combinação de crítica e cordialidade revela incômodo de Trump com o desfecho eleitoral, mas também conformismo diante dele. Trump demonstra disposição em questionar a eleição sem, contudo, assumir custos políticos de uma campanha para revertê-la.

O presidente americano oferece solidariedade retórica aos Bolsonaro para alimentar a narrativa da injustiça eleitoral, mas preserva os canais de negociação com quem sabe que continuará ocupando o Planalto. A aproximação entre trumpismo e bolsonarismo é real e já produziu pressões diplomáticas e econômicas contra o Brasil.

Contudo, a afinidade não equivale a compromisso irrestrito. Para Trump, a família Bolsonaro funciona como um ativo político altamente instrumental quando ajuda a ampliar sua influência e constranger adversários. Quando o custo de sustentá-la aumenta, a orientação muda.

Trump poderia ter anunciado que não reconheceria o resultado das eleições brasileiras, condicionado a relação bilateral a uma recontagem ou ameaçado represálias. Não o fez, ao menos até o momento. Preferiu a suspeita genérica acompanhada de uma declaração cordial sobre Lula.

A fórmula é conveniente: sinaliza lealdade à base ideológica sem amarrar a política externa norte-americana a uma contestação com poucas chances de prosperar. O gesto não é inofensivo. Ao insinuar fraude sem apresentar evidências, o presidente americano empresta autoridade à desconfiança nas instituições brasileiras.

Há razões materiais para essa cautela diplomática. Washington continuará precisando negociar com Brasília sobre comércio, minerais críticos, investimentos, segurança regional e competição com a China. A administração Trump abriga atores empenhados na causa bolsonarista, e a disposição do presidente pode mudar conforme sua conveniência.