Uso de IA para saúde mental entre jovens: riscos de dependência e isolamento

Especialistas alertam que interação com chatbots pode agravar solidão e prejudicar habilidades sociais

Estudo revela que 1 em 10 jovens prefere conversar com chatbots do que com humanos, mas especialistas alertam para riscos emocionais e sociais.

O uso de IA para saúde mental tem crescido entre jovens, especialmente através de chatbots como ChatGPT, Claude e Gemini. Um estudo recente publicado no periódico BMJ revela que cerca de um em cada três adolescentes recorre a essas ferramentas para interação social, sendo que 10% deles relatam preferência pela companhia virtual em relação às interações humanas.

Sinais de uma dependência emocional preocupante

Especialistas alertam que esse fenômeno pode levar a uma dependência emocional prejudicial. Embora esses sistemas proporcionem uma sensação de companhia e segurança, eles carecem da empatia e da capacidade de resposta emocional genuína presentes nas relações humanas. Essa lacuna pode criar um ciclo onde o jovem acaba por evitar conflitos e dificuldades reais, inerentes às relações interpessoais.

Impactos no isolamento social e habilidades emocionais

A preocupação é que o uso excessivo da IA para suporte emocional possa agravar o isolamento social, uma vez que as conexões digitais muitas vezes são superficiais e não substituem o contato humano. O psiquiatra Daniel de Paula Oliva, do Einstein Hospital Israelita, destaca que as interações mediadas por IA oferecem uma paciência infinita, sem apresentar desafios ou frustrações que são essenciais para o amadurecimento emocional e social.

A realidade brasileira e o uso elevado de IA

No Brasil, essa situação é ainda mais delicada. Uma pesquisa da Cisco em parceria com a OCDE aponta que o país ocupa o segundo lugar mundial no uso de IA generativa, com 51,6% da população fazendo uso dessas tecnologias, atrás apenas da Índia. A falta de acesso adequado a serviços de saúde mental amplifica a dependência dos jovens por essas ferramentas, criando um paradoxo entre democratização do suporte e risco de isolamento.

Potencial positivo da IA como apoio e alerta

Apesar dos riscos, a IA pode ser uma aliada no cuidado da saúde mental se usada adequadamente. Segundo Oliva, ela pode identificar sinais precoces de sofrimento psíquico e servir como ponte para o cuidado efetivo, estimulando o indivíduo a buscar ajuda profissional e fortalecer relações humanas.

Sintomas indicativos de uso problemático da IA

A transição do uso saudável para um padrão problemático é marcada por sintomas semelhantes a outras dependências, como:

Ansiedade ao ficar longe da internet ou do chatbot (abstinência digital)
Negligência da rotina, incluindo estudo, trabalho e atividades físicas
Dificuldade em lidar com frustrações e complexidades dos relacionamentos humanos reais
Alterações no ciclo de sono, como dificuldade para dormir ou inversão de jornada

  • Sentimentos intensos de tristeza e isolamento

Esses sinais devem ser observados com atenção por familiares e profissionais de saúde para intervenções precoces.

A presença crescente da inteligência artificial na vida dos jovens traz desafios inéditos para a saúde mental e social. Compreender seus limites e potenciais, promovendo um uso equilibrado, é fundamental para evitar que a tecnologia agrave problemas já existentes, como a solidão e a dificuldade de convívio social.