Quase 50 mil votos à procura de representação

Ponta Grossa chega à eleição de 2026 com um fenômeno que merece atenção: há quase 50 mil votos para deputado estadual que, tomando como referência a eleição passada, estão sem seu destino tradicional. Podemos chamar esse fenômeno de “estoque de votos”.

A expressão não significa que um político seja dono dos votos que recebeu. Não é. O voto pertence exclusivamente ao eleitor e uma escolha feita em 2022 não obriga ninguém a repeti-la em 2026. Aqui, “estoque de votos” significa outra coisa: é o conjunto de votos que, na eleição anterior, foi destinado a candidaturas fortemente identificadas com determinado território e que, na eleição seguinte, já não encontram aqueles mesmos candidatos disputando o mesmo cargo. É exatamente o que acontece hoje em Ponta Grossa.

Em 2022, Marcelo Rangel recebeu 31.131 votos na cidade para deputado estadual. Dr. Zeca recebeu 8.981. Plauto Miró recebeu 8.066. Somados, são 48.178 votos. Nenhum dos três está na disputa pela Assembleia Legislativa em 2026. São, portanto, quase 50 mil votos que precisam encontrar um novo destino.

É evidente que não se trata de um bloco uniforme. Parte desses eleitores pode ter mudado de opinião. Alguns votarão em candidatos de outras cidades. Outros escolherão pelo partido, pela ideologia, por uma pauta específica ou por indicação de alguma liderança. Haverá ainda quem vote em branco, anule ou simplesmente não compareça. Por isso, dizer que existem quase 50 mil votos “voando sem dono” é uma figura de linguagem, não uma projeção eleitoral. Mas o número ajuda a revelar algo maior.

Entre esses três nomes estão dois personagens que, durante décadas, ocuparam um espaço muito específico na política local: Marcelo Rangel e Plauto Miró foram, quando deputados estaduais, representantes políticos de Ponta Grossa na Assembleia Legislativa.

Claro que isso não significa concordar com tudo o que fizeram. Também não significa ignorar erros, controvérsias ou diferenças políticas. Significa reconhecer uma característica objetiva de suas trajetórias: os dois carregaram Ponta Grossa como parte central de sua identidade política.

Marcelo Rangel chegou à Assembleia em 2007. Durante sua passagem pela ALEP, uma de suas bandeiras foi a criação da Região Metropolitana dos Campos Gerais, proposta que colocou em discussão uma estrutura regional tendo Ponta Grossa como principal centro urbano.

Em outra frente, articulou apoio parlamentar para a implantação de um Aeroporto Internacional dos Campos Gerais em Ponta Grossa. Em 2007, a proposta chegou a reunir a assinatura de 53 deputados estaduais antes de ser levada ao Governo do Estado. O projeto não se concretizou daquela forma, mas o episódio ilustra com clareza o papel que Rangel procurava exercer: usar seu mandato em Curitiba para colocar demandas de Ponta Grossa e da região na agenda estadual. Depois, sua ligação política com a cidade tornou-se ainda mais evidente.

Rangel deixou a Assembleia para disputar a Prefeitura de Ponta Grossa em 2012. Venceu. Em 2016, foi reeleito. Foram oito anos à frente do município, entre 2013 e 2020. Pode-se gostar ou não de suas administrações. Essa é outra discussão. O fato relevante aqui é que poucos políticos contemporâneos tiveram uma trajetória tão diretamente ligada à representação política de Ponta Grossa: deputado estadual, prefeito por dois mandatos e, posteriormente, novamente deputado estadual. Com Plauto Miró, essa história é ainda mais longa.

Plauto chegou à Assembleia Legislativa em 1991 e permaneceu nela durante oito mandatos consecutivos. Foram mais de três décadas de vida parlamentar, período em que sua atuação esteve constantemente associada a Ponta Grossa e aos Campos Gerais.

Entre as grandes pautas de sua trajetória está a implantação do curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Foi uma construção que envolveu diferentes lideranças e instituições, portanto seria incorreto atribuí-la exclusivamente a um parlamentar. Mas Plauto participou dessa articulação e fez dela uma das principais bandeiras de sua passagem pela ALEP.

O mesmo ocorreu com o fortalecimento do atual Hospital Universitário Regional dos Campos Gerais. A transformação do então Hospital Regional em Hospital Universitário e sua vinculação à UEPG passaram pela Assembleia, e Plauto esteve entre os parlamentares envolvidos na discussão e na defesa da estrutura hospitalar de Ponta Grossa.

Sua presença na política municipal também não se limitava ao mandato estadual. Plauto foi candidato a prefeito de Ponta Grossa em 1996 e, nos anos seguintes, tornou-se uma das lideranças mais influentes da política local. Foi forte aliado de Pedro Wosgrau Filho e participou das articulações e campanhas que levaram Wosgrau novamente à Prefeitura e sustentaram aquele grupo político em eleições municipais.

Isso ajuda a compreender por que Marcelo e Plauto são importantes para esta discussão. Eles não eram apenas candidatos que vinham a Ponta Grossa buscar votos. Ponta Grossa fazia parte da razão política de seus mandatos. E talvez seja justamente esse espaço que esteja aberto em 2026.

É perfeitamente legítimo que um eleitor escolha seu deputado estadual principalmente pela ideologia. Há quem procure um candidato cuja principal bandeira seja à direita. Há quem faça exatamente o mesmo à esquerda. Outros escolhem a partir de pautas como segurança pública, educação, meio ambiente, saúde, funcionalismo ou desenvolvimento econômico. Tudo isso faz parte da democracia e representa parcelas reais do eleitorado. 

Mas existe também um eleitor que procura outra coisa. É o eleitor que quer votar em alguém cuja principal bandeira seja Ponta Grossa. Alguém que não apenas tenha domicílio eleitoral na cidade ou apareça por aqui durante a campanha. Alguém que diga claramente que pretende chegar à Assembleia para representar Ponta Grossa, defender seus interesses, buscar investimentos, acompanhar suas universidades e hospitais, cobrar obras, discutir suas rodovias, pensar seu desenvolvimento e fazer com que uma das maiores cidades do Paraná tenha voz política compatível com seu tamanho. Esse eleitor parece estar órfão de uma candidatura com esse perfil claramente definido.

E essa ausência pode ter consequência. Uma cidade pode ter um eleitorado enorme e, ainda assim, transformar esse peso eleitoral em pouca representação. Se seus votos forem excessivamente pulverizados entre candidaturas que não alcançam mandato ou direcionados a políticos cuja principal base está em outras regiões, Ponta Grossa pode terminar a eleição com uma presença na ALEP menor do que seu tamanho político e populacional permitiria.

É importante fazer uma ressalva: eleição para deputado estadual é proporcional. Não basta simplesmente somar votos de uma cidade e transformá-los em cadeiras. O desempenho dos partidos e federações, o quociente eleitoral e as demais regras de distribuição das vagas também interferem no resultado. Mas isso não elimina a questão central.

Em 2022, apenas Marcelo Rangel, Dr. Zeca e Plauto Miró receberam 48.178 votos dentro de Ponta Grossa. Em 2026, nenhum dos três oferece ao eleitor a mesma opção para deputado estadual. Esse é o nosso estoque de votos. Não são 48 mil votos esperando um novo dono. São quase 50 mil escolhas que precisarão ser refeitas. 

Caro leitor, o ponto principal de tudo isso que foi dito não é simplesmente procurar para onde esses votos irão. É saber se algum candidato percebeu que existe uma parcela do eleitorado procurando algo que a cidade já teve durante muitos anos: um deputado que assuma Ponta Grossa como sua principal bandeira.

Direita e esquerda continuarão disputando seus espaços. Partidos continuarão apresentando seus projetos. Candidatos continuarão defendendo suas causas. Mas existe uma bandeira que parece estar esperando alguém levantá-la. Ponta Grossa.