Banco Central reduz projeção de crescimento, mas inflação ainda pressiona juros

Economia desacelera, mas custos com energia e alimentos mantêm pressão inflacionária, complicando decisão sobre novos cortes de Selic.

Banco Central reduz projeção de crescimento, mas inflação ainda pressiona juros
Desaceleração da economia não elimina pressões de custos com energia e alimentos. Foto: Ilustração gerada por IA

Banco Central reduziu projeção de crescimento de 2% para 1,8% em 2026. Desaceleração não garante queda de inflação se choques externos persistirem.

O Banco Central reduziu a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2% para 1,8% em 2026, conforme o Relatório de Política Monetária divulgado nesta quinta-feira (24). A revisão foi mais acentuada no consumo das famílias, que caiu de 2,1% para 1,2%.

Segundo o diretor de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do BC, Paulo Picchetti, o enfraquecimento das compras está relacionado às condições de financiamento e aos efeitos defasados dos juros. Ele ressaltou que a economia continua perdendo força mesmo depois dos cortes da Selic, porque o crédito permanece caro e a política monetária leva tempo para produzir seus efeitos.

Apesar da desaceleração econômica, a inflação continua pressionando a decisão sobre novos cortes de juros. Não existe um número mágico de crescimento que, sozinho, autorize o BC a prosseguir com a redução da taxa. O que importa é se a desaceleração está reduzindo a capacidade de empresas repassarem custos e diminuindo a pressão sobre os preços.

O emprego segue aquecido e, segundo Picchetti, os salários têm crescido acima da produtividade. Isso significa que uma economia pode avançar mais devagar e ainda conviver com custos pressionados e pouco espaço para ampliar a produção sem gerar inflação.

Para Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper, o consumo mais fraco dificulta reajustes porque as empresas arriscam perder vendas. Contudo, esse freio não elimina aumentos provocados por energia, combustíveis ou alimentos mais caros. Choques externos como esses complicam a tarefa do BC.

Segundo Picchetti, a propagação dessas altas iniciais para outros preços e salários, que tornaria a inflação mais persistente, ainda não aparece de forma significativa. Ele indicou que a política monetária parece estar ajudando a conter essa disseminação, o que representa um sinal favorável, mas não prova que a restrição já possa ser rapidamente retirada.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, prevê crescimento de apenas 1% em 2027, abaixo dos 1,4% estimados pelo BC. Mesmo nesse cenário mais fraco, ele considera possível uma pausa nos cortes de juros após um eventual movimento de redução.