Mais tempo para viver

Se o fim da escala 6×1 pudesse ter um rosto, com certeza seria o de Erika Hilton. Deputada federal transexual, filiada ao PSOL de São Paulo e reeleita à Câmara, ela se tornou uma das principais vozes dessa mobilização. Ao seu lado está Rick Azevedo, gay, ex-balconista de farmácia, fundador do movimento Vida Além do Trabalho e deputado federal eleito pelo PSOL do Rio de Janeiro.

O protagonismo dos dois ganha significado diante do Congresso que assumirá em 2027. As eleições ampliaram a direita, e o PL terá 121 deputados e 28 senadores. Nesse ambiente mais conservador, uma mulher trans e um homem gay estarão entre os principais nomes de uma reivindicação que alcança milhões de brasileiros. Vale a reflexão para quem acredita que representantes LGBT atuam apenas nas pautas da própria comunidade.

O alcance dessa mobilização permite uma comparação: talvez o fim da escala 6×1 seja a mais importante pauta de ampliação de direitos trabalhistas desde a Constituição de 1988. Reduzir a jornada sem reduzir o salário significa devolver tempo para estudar, acompanhar os filhos e descansar. Quem trabalha seis dias sabe que a única folga costuma ser ocupada pelas tarefas domésticas. Quando termina de organizar a vida, já precisa voltar ao serviço.

Foi essa realidade que chegou à votação. Na Câmara, a PEC 221/2019, passou em dois turnos em maio: 472 votos a 22 e 461 a 19. No Senado, na última quarta-feira, foram 75 votos a 1 em cada turno. O texto prevê jornada semanal de 40 horas, sem redução salarial, e dois dias de descanso. Os placares mostram que a pauta ultrapassou a esquerda. O eleitor pode votar num conservador e também querer mais tempo para viver.

Essa combinação ajuda a compreender o movimento de Flávio Bolsonaro. Antes de anunciar apoio, classificou a proposta como oportunista e eleitoreira. Na terça-feira anterior à votação, afirmou que votaria a favor porque a maioria dos trabalhadores queria o fim da escala. Manteve ressalvas sobre custos, informalidade e compensações pelo governo. Reconheceu a vontade do trabalhador, mas apresentou a fatura.

O apoio também veio acompanhado de uma possibilidade de mudança. Segundo o Painel da Folha, Flávio sinalizou a aliados que, se eleito, defenderá alterações para ampliar a negociação entre empresas e trabalhadores. A reportagem tratava de revisão, não de revogação integral. Ainda assim, o eleitor precisa saber quais garantias permaneceriam e o que poderia passar a depender de um acordo.

Essa possibilidade exige olhar para o poder de barganha de cada lado. No papel, pela possibilidade de mudança proposta por Flávio, patrão e empregado podem discutir as horas trabalhadas. Na prática, quem tem mais condições de recusar uma proposta: quem precisa do salário para pagar o aluguel ou quem pode contratar outra pessoa? Isso não torna todo acordo injusto, mas explica por que existem proteções trabalhistas. Elas estabelecem limites numa relação em que a necessidade do emprego pesa mais sobre um dos lados.

Foi com essas ressalvas e sinalizações que Flávio chegou à última quarta-feira e votou a favor, a distância. Hamilton Mourão foi o único contrário nos dois turnos. Vale lembrar: Mourão foi vice de Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Os votos foram diferentes, mas a resistência do antigo vice também integra a história desse campo político diante da mudança.

Enquanto esse campo expunha suas diferenças, Lula colhia uma vitória na disputa presidencial contra Flávio. Há interesse eleitoral na aprovação, assim como há uma mudança concreta aprovada. Uma coisa não elimina a outra. Mas a disputa pelo crédito não deve apagar a mobilização popular que levou o assunto ao Congresso.

Caro leitor, aprovar a proposta é uma etapa. Transformá-la em descanso na vida do trabalhador exige cumprir os prazos de transição e acompanhar sua aplicação. Também precisamos observar o Congresso que assumirá em 2027: qualquer tentativa de alterar essas garantias deve ser explicada à população. Quem votou a favor agora terá de responder pelo que defender depois da eleição. É isso que cabe cobrar: que o apoio ao fim da escala 6×1 se mantenha quando o voto do trabalhador já não estiver em disputa.