Estudo revela alta prevalência de epilepsia em crianças com microcefalia por zika

Pesquisa da Fiocruz acompanha 843 crianças e destaca sequelas neurológicas graves da síndrome congênita do zika

Estudo revela alta prevalência de epilepsia em crianças com microcefalia por zika
Criança acompanhada em estudo da Fiocruz sobre microcefalia causada pelo vírus zika no Brasil. Foto: Folhapress

Pesquisa inédita da Fiocruz mostra que mais da metade das crianças com microcefalia por zika desenvolve epilepsia e outras sequelas neurológicas graves, impactando a qualidade de vida e expectativa de vida.

A epilepsia em crianças com microcefalia causada pelo vírus zika é uma das sequelas neurológicas mais prevalentes e graves, segundo um amplo estudo conduzido pela Fiocruz. A pesquisa, que acompanhou 843 crianças afetadas pela Síndrome Congênita do Zika (SCZ) no Brasil, revelou que mais da metade dos pacientes desenvolveram convulsões e apresentaram déficits sociais, além de outras alterações sensoriais que comprometem o desenvolvimento e a qualidade de vida.

Contexto e importância do estudo

O vírus zika, identificado no Brasil em 2015, causou uma epidemia que resultou no nascimento de milhares de bebês com microcefalia e outras complicações neurológicas severas. A Fiocruz realizou o maior estudo mundial nesta área, com dados coletados de 12 centros de pesquisa nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país, abrangendo crianças nascidas entre 2015 e 2018.

A microcefalia foi observada em 71,3% dos casos ao nascimento, com 20,4% desenvolvendo a condição posteriormente, evidenciando a complexidade e a heterogeneidade da síndrome. A forma desproporcional da microcefalia, em que a cabeça é menor em relação ao corpo, foi a mais comum e está associada a danos cerebrais mais graves.

Principais sequelas identificadas

O estudo detalha as sequelas neurológicas e sensoriais com alta prevalência entre as crianças afetadas:

Epilepsia: Afetou em média 58,3% das crianças, correspondendo a um quadro grave e de difícil controle, com necessidade de múltiplos medicamentos e acompanhamento constante.
Déficits de atenção social: Presença de ausência de sorriso social e fixação do olhar em pelo menos metade dos casos.
Alterações oftalmológicas: Encontradas em até 67% dos pacientes, comprometendo a visão.
Dificuldades de deglutição: Relatadas em cerca de 46,9% das crianças.
Danos estruturais cerebrais: Calcificações cerebrais em 80% dos casos, associadas a convulsões, hipertonia e espasticidade muscular.

Fatores que influenciam a gravidade e o prognóstico

O momento da infecção durante a gestação impacta diretamente a gravidade da síndrome:

Primeiro trimestre: Interrupção do desenvolvimento cerebral, levando à formação incompleta do cérebro.
Segundo e terceiro trimestres: Destruição de células cerebrais em crescimento, causando apoptose.

Além disso, condições como prematuridade e baixo peso ao nascer agravam o prognóstico, com cerca de 30% das crianças com formas graves morrendo no primeiro ano de vida, principalmente por complicações respiratórias e infecções.

Intervenções e cuidados essenciais

A pesquisa enfatiza a importância da estimulação precoce e do tratamento multidisciplinar para melhorar a qualidade de vida das crianças com SCZ:

Estimulação sensorial, motora e cognitiva: Para ativar áreas cerebrais preservadas e compensar danos.
Fisioterapia e fonoaudiologia: Para auxiliar no desenvolvimento motor e na comunicação.
Correção de déficits visuais e auditivos: Fundamental para a integração social e aprendizado.

  • Controle rigoroso das convulsões: Vital para evitar complicações adicionais.

Serviço e acompanhamento contínuo

O estudo reforça que, apesar dos avanços, as sequelas são irreversíveis e a expectativa média de vida dessas crianças varia entre 10 e 15 anos, podendo ser prolongada com cuidados especializados. Cerca de 70% dos pacientes continuam em acompanhamento médico, destacando a necessidade de políticas públicas e suporte para famílias.

A pesquisa da Fiocruz representa um marco científico que consolida evidências sobre as consequências da infecção pelo zika vírus na infância, orientando profissionais de saúde e gestores para o desenvolvimento de estratégias eficazes de cuidado e prevenção.

Este panorama evidencia a urgência de atenção especial para as crianças com microcefalia associada ao vírus zika, priorizando a intervenção precoce e o suporte multidisciplinar para minimizar o impacto das sequelas neurológicas e sensoriais.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

Fonte: Folhapress