Mercosul e UE firmam acordo comercial após mais de 20 anos de negociações

Tratado histórico conecta cerca de 720 milhões de consumidores e prevê eliminação gradual de tarifas

Mercosul e UE firmam acordo de livre comércio, conectando 720 milhões de consumidores e eliminando tarifas gradualmente.

Após duas décadas de negociações, Mercosul e União Europeia firmam histórico acordo de livre comércio

Neste sábado (17), os blocos econômicos do Mercosul e da União Europeia (UE) formalizaram um acordo de livre comércio em Assunção, Paraguai. O tratado, que conecta um mercado de cerca de 720 milhões de consumidores, representa a conclusão da fase política e técnica iniciada em 1999, simbolizando um marco na integração comercial entre América do Sul e Europa.

Assinatura e contexto político

A cerimônia ocorreu no teatro José Asunción Flores, no Banco Central do Paraguai — local emblemático onde em 1991 foi assinado o Tratado de Assunção, que fundou o Mercosul. O evento contou com a presença de chefes de Estado sul-americanos e autoridades europeias, como Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu.

Devido a compromissos de agenda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participou da assinatura, sendo representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Na véspera, Lula recebeu os representantes europeus no Rio de Janeiro para discutir a implementação do acordo e temas internacionais.

Principais características do acordo

O tratado prevê a eliminação gradual de tarifas de importação sobre mais de 90% do comércio bilateral, abrangendo bens industriais — como máquinas, equipamentos, automóveis e produtos químicos — e itens agrícolas. Entre os dispositivos destacam-se:

Redução progressiva de tarifas alfandegárias
Criação de cotas para produtos agrícolas considerados sensíveis
Mecanismos de salvaguarda para proteger mercados internos
Manutenção de regras sanitárias rigorosas
Abertura gradual de compras públicas
Proteção à propriedade intelectual

  • Capítulo específico para pequenas e médias empresas

Além disso, cláusulas ambientais vinculantes condicionam benefícios comerciais ao combate ao desmatamento ilegal e ao cumprimento do Acordo de Paris, alinhando o pacto à agenda de proteção ambiental.

Processo de ratificação e implementação

Após a assinatura, o acordo seguirá para aprovação pelo Parlamento Europeu e pelos congressos nacionais dos países do Mercosul. A entrada em vigor será escalonada ao longo dos próximos anos. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, manifestou otimismo quanto ao cronograma, prevendo vigência do tratado ainda no segundo semestre deste ano.

Impactos econômicos e reações

Governos e setores industriais destacam o potencial do acordo para ampliar exportações e integrar cadeias globais de valor. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) estima aumento nas exportações brasileiras da ordem de US$ 7 bilhões, com reflexos positivos para a indústria nacional.

Entretanto, o tratado enfrenta resistência de agricultores europeus, especialmente na França e Irlanda, preocupados com a concorrência. Ambientalistas também alertam para possíveis impactos climáticos e uso do solo, embora as cláusulas ambientais busquem mitigar tais riscos.

Perspectivas para o futuro das relações Mercosul-União Europeia

O acordo configura um novo marco para as relações comerciais entre os blocos, estabelecendo a maior zona de livre comércio do mundo. A expectativa é que a integração progressiva dos mercados ocorra ao longo da próxima década, promovendo desenvolvimento econômico e cooperação sustentável entre América do Sul e Europa.