Estudo mostra que operação da hidrelétrica no rio Xingu interrompe reprodução natural dos peixes e ameaça ecossistema local

Mortandade massiva de ovas expõe como operação da usina Belo Monte impacta o ciclo reprodutivo dos peixes no rio Xingu.
Mortandade massiva de ovas evidencia impacto ambiental no rio Xingu
A mortandade massiva de ovas documentada no sábado, 21 de fevereiro, na Volta Grande do Xingu, abaixo da barragem da hidrelétrica de Belo Monte, revela efeitos profundos da operação da usina sobre a reprodução dos peixes na região. Essa área, conhecida como Piracema do Odílio, vem sofrendo com a exposição de milhares de ovas de peixes fora da água, o que impede a sobrevivência dos embriões e compromete a renovação dos estoques naturais.
Regime de operação da usina reduz vazão e altera ciclo natural do rio
A maior parte da água do rio Xingu, mais de 80%, é desviada para um reservatório intermediário para geração de energia. Essa redução drástica da vazão no chamado trecho de vazão reduzida, com cerca de 100 km, rompe o pulso natural de cheias e vazantes que historicamente conectava o rio às áreas de floresta alagada, onde os peixes desovam. Sem essa conexão contínua, as chuvas locais passam a causar alagamentos breves e temporários que confundem os peixes quanto ao momento da piracema, resultando na desova em locais que logo ficam secos, expondo as ovas.
Consequências para ecossistema e comunidades locais
André Oliveira Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da USP, destaca que a interrupção dos ciclos naturais ameaça o equilíbrio da ictiofauna e de outras espécies, como quelônios, e pode levar ao colapso das populações locais. Para Josiel Jacinto Pereira Juruna, coordenador do monitoramento independente Mati-VGX, a principal espécie afetada é o curimatá, fundamental para a segurança alimentar e a economia da região. A falta de reposição natural dos peixes compromete tanto o ecossistema quanto o sustento das comunidades ribeirinhas.
Conflito entre concessionária e órgãos ambientais sobre medidas
A Norte Energia, responsável pela usina, reconhece a ocorrência das ovas fora da água e afirma que os dados do monitoramento ambiental conduzido com a UFPA indicam manutenção das proporções de peixes maduros ao longo de 13 anos. Contudo, pesquisadores e o Ibama apontam que as variações bruscas e a redução da vazão causam um padrão repetido de mortandade, com impactos negativos para o ciclo reprodutivo. O órgão ambiental está avaliando as informações recolhidas em vistorias recentes, enquanto o Ministério Público Federal acompanha o caso.
Propostas para mitigação e restauração da dinâmica natural do rio
Estudos independentes recomendam a implementação de um hidrograma que respeite os ciclos de piracema, aumentando o volume e a duração das cheias para restabelecer o habitat natural necessário à reprodução. Solicita-se também limitar a captação para geração a no máximo 30% da vazão do rio, evitando alterações repentinas no nível da água durante os períodos críticos para a fauna. Esta mudança exigiria da operação da usina abrir mão de parte da geração energética para garantir a conservação ambiental e a sustentabilidade da região no longo prazo.
Monitoramento contínuo e desafios para o futuro do Xingu
Desde 2023, o monitoramento independente vem documentando a repetição anual desses episódios de mortandade das ovas, evidenciando que o ciclo da ictiofauna está sendo interrompido sistematicamente. A continuidade desse cenário sem ajustes no regime de operação coloca em risco não só a biodiversidade local, mas também as atividades econômicas e culturais vinculadas ao rio e suas comunidades. O desafio para as autoridades e concessionária é conciliar a geração de energia com a preservação ambiental, garantindo o equilíbrio do ecossistema e a viabilidade das populações tradicionais.





