China mantém foco no consumo doméstico apesar da pressão dos EUA por abertura

Especialistas destacam que a China prioriza sua economia interna e campeões nacionais enquanto negocia com os Estados Unidos

China mantém foco no consumo doméstico apesar da pressão dos EUA por abertura
Vista da bandeira chinesa durante visita oficial nos Estados Unidos. Foto: REUTERS/Florence Lo

A China prioriza o fortalecimento do consumo doméstico em seu plano econômico, apesar da pressão dos EUA para maior abertura do mercado.

Foco no consumo doméstico como estratégia central da China

O foco no consumo doméstico é o principal objetivo do 15º Plano Quinquenal da China, que busca fortalecer a economia interna diante de um cenário mundial mais complexo. Durante a visita de Donald Trump, a questão da abertura do mercado chinês para empresas americanas esteve em evidência, mas especialistas destacam que o país asiático prioriza o desenvolvimento do consumo local para reduzir a dependência de exportações e investimentos externos. Theo Paul Santana, especialista em negócios China/Brasil, ressalta que o consumo das famílias representa hoje cerca de 40% do PIB chinês, percentual inferior ao dos Estados Unidos e à média global.

Estratégias para estimular a população e fortalecer campeões nacionais

Para ampliar o consumo, o governo chinês vinculou oficialmente o crescimento da renda da população ao crescimento do PIB e ampliou investimentos em saúde, previdência social, urbanização e programas de estímulo direto. Entre as medidas, destacam-se subsídios para troca de bens duráveis, como veículos e eletrodomésticos, com um volume estimado em RMB 300 bilhões, além de incentivos para famílias com filhos e expansão da cobertura previdenciária. Contudo, o aumento do consumo não implica abertura indiscriminada para empresas estrangeiras. A China mantém barreiras significativas a plataformas digitais ocidentais e prioriza seus campeões nacionais, buscando consolidar seu protagonismo tecnológico e econômico.

Transformações econômicas e tecnológicas da China desde 2017

Desde a visita anterior de Trump em 2017, a China evoluiu para uma economia mais sofisticada e menos dependente dos Estados Unidos. O PIB nominal praticamente dobrou, passando de cerca de US$ 12 trilhões em 2017 para uma estimativa próxima de US$ 20 trilhões em 2026. A composição econômica mudou, com destaque para a liderança em setores estratégicos globais, como veículos elétricos, baterias, painéis solares, inteligência artificial e manufatura avançada. Hoje, 80% dos veículos elétricos mais vendidos mundialmente são chineses, e o país detém cerca de 70% da cadeia global de baterias, demonstrando a ampliação de sua influência industrial e tecnológica.

Desafios internos e impactos na política econômica da China

Apesar dos avanços, a China enfrenta desafios significativos. O setor imobiliário, que já representou perto de 30% do PIB, entrou em crise após o colapso da incorporadora Evergrande, cujo passivo ultrapassa US$ 300 bilhões. Além disso, questões demográficas preocupam: a população chinesa diminui pelo quarto ano consecutivo, com uma das menores taxas de natalidade do mundo. Esses fatores impactam a dinâmica econômica e reforçam a necessidade de políticas que estimulem o consumo interno, ao mesmo tempo que mantêm a estabilidade social e financeira.

Relações comerciais e geopolíticas entre China e Estados Unidos

A dependência econômica da China em relação aos Estados Unidos diminuiu consideravelmente desde 2017. Enquanto os EUA representavam aproximadamente 19% das exportações chinesas naquele ano, atualmente essa participação caiu para cerca de 10%. A China diversificou seus mercados, fortalecendo relações com países da ASEAN, Oriente Médio, África e América Latina. Paralelamente, reorganiza sua cadeia global de influência econômica para reduzir riscos e ampliar sua autonomia. Este cenário complexo molda as negociações entre as duas potências, que envolvem desde tecnologia até propriedade intelectual, refletindo interesses divergentes e a busca por equilíbrio estratégico em uma relação global decisiva.