Crédito privado ganha espaço no agro com redução do papel do Estado

Mudança estrutural no financiamento da agropecuária brasileira aponta para maior participação do mercado privado diante das limitações do crédito público

Crédito privado ganha espaço no agro com redução do papel do Estado
Agricultor inspeciona área de plantio em cenário agrícola brasileiro

O crédito privado no agro avança enquanto o financiamento estatal perde fôlego, refletindo desafios e transformações no setor produtivo.

Crédito privado no agro avança com redução do papel do Estado

O crédito privado no agro tem ganhado espaço significativo no Brasil, em um cenário em que o financiamento público perde fôlego. Em 17 de janeiro de 2026, o presidente do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas, destacou a diminuição da capacidade dos governos em fornecer crédito para o setor agrícola, dado que prioridades fiscais e limitações orçamentárias restringem o crédito público. Nesse contexto, o Plano Safra permanece uma referência importante para taxas e diretrizes, mas não é mais o principal motor do financiamento da produção agrícola.

Este movimento de transição no modelo de crédito revela uma mudança estrutural, na qual o mercado de capitais e os instrumentos privados, como barter, crédito de fornecedores e emissões financeiras, assumem papel predominante. O Tesouro Nacional destina atualmente cerca de R$ 13 bilhões para equalização de juros, enquanto a agropecuária movimenta aproximadamente R$ 2 trilhões, com a diferença sendo suprida pelo crédito privado no agro.

Ampliação dos instrumentos privados no financiamento agrícola brasileiro

Dados oficiais do Ministério da Agricultura indicam que o estoque dos instrumentos privados, como Cédula de Produto Rural (CPR), Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), ultrapassa R$ 1,4 trilhão no país. Essa expansão demonstra o aumento consistente da participação do mercado de capitais no financiamento da produção agrícola.

Técnicos e membros do governo avaliam que a diversificação das fontes de recursos deixou de ser apenas uma tendência para se tornar uma necessidade, principalmente devido às restrições fiscais e aos custos crescentes do crédito público. A segurança jurídica e o desenvolvimento de instrumentos eficazes de mitigação de risco são essenciais para fomentar esse avanço do crédito privado no agro.

Impacto da perda de renda e fragilidade financeira dos produtores rurais

A transição para o crédito privado ocorre em meio a um cenário de queda da renda agrícola e aumento da fragilidade financeira, especialmente entre os produtores de menor escala. A diminuição dos preços das commodities, combinada com custos elevados de insumos e fatores geopolíticos, tem reduzido significativamente as margens de lucro da atividade agrícola.

Segundo Márcio Lopes de Freitas, a soja, por exemplo, caiu de preços em torno de R$ 200 para R$ 110 por saca nos últimos anos, num momento em que despesas com insumos e combustíveis seguem elevadas. Esse cenário pressiona o endividamento dos produtores, exigindo renegociações e medidas para alongar prazos e proporcionar fôlego financeiro, sobretudo para aqueles mais vulneráveis.

Vulnerabilidades estruturais do setor diante da dependência de insumos importados

Outro desafio estrutural destacado pela presidente executiva da Organização das Cooperativas Brasileiras, Tânia Zanella, é a dependência do Brasil de insumos fertilizantes importados, o que expõe o setor agropecuário a riscos decorrentes de instabilidades geopolíticas.

O atual contexto reforça a necessidade de políticas estruturantes que promovam a diversificação das fontes e o desenvolvimento de alternativas domésticas para insumos agrícolas, com o objetivo de aumentar a autossuficiência e a resiliência do agronegócio brasileiro.

Cooperativas como protagonistas na nova dinâmica de financiamento agrícola

Com o crédito privado mais presente e os custos do financiamento público em alta, as cooperativas agrícolas emergem como elos fundamentais para o acesso ao crédito e a organização da produção. Atualmente, cerca de 54% da originação da produção agrícola brasileira é realizada por cooperativas, que oferecem crédito, insumos, armazenagem e comercialização.

O fortalecimento do cooperativismo é visto como uma tendência natural e estratégica, ampliando a capacidade do setor de se financiar através de mecanismos variados e instrumentos financeiros, inclusive com emissões de títulos na B3 e no mercado internacional, desde que garantidos segurança jurídica e mecanismos adequados de seguro.

Agenda institucional para 2026 foca em seguro agrícola e mitigação de riscos

Reconhecendo os desafios financeiros e estruturais enfrentados pelo setor, a agenda institucional do agro para 2026 prioriza a ampliação do seguro agrícola, considerado fundamental para mitigar riscos e reduzir o endividamento dos produtores.

Além disso, o setor busca a manutenção e expansão do crédito rural, o estímulo a instrumentos privados de financiamento, a implementação de políticas para diminuir a dependência de fertilizantes importados e investimentos em infraestrutura logística e armazenagem. Essa agenda visa proporcionar maior previsibilidade e sustentabilidade ao agro brasileiro, alinhando interesses públicos e privados para fortalecer o setor diante de um cenário de transformações econômicas e geopolíticas.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br